sábado, 27 de setembro de 2014

O último convite do Orkut

No final dos meus cursos de storytelling eu normalmente proponho que os alunos criem uma história a partir de um problema de comunicação que pode ser desde aumentar as vendas de um produto, conscientizar as pessoas sobre uma causa, divulgar um novo serviço etc.

Na minha última turma do DIGICORP, pós-graduação em comunicação digital da ECA-USP, o Gustavo Miller escreveu uma história para estimular as pessoas a entrarem no Orkut para fazer o backup de suas contas utilizando o serviço Takeout.

Nada mais propício do que publicar essa história aqui, poucas horas antes da rede sair for do ar para sempre. Fica como minha homenagem. :)


Há 10 anos eu queria apenas ter um milhão de amigos...

Quando meu pai, um engenheiro turco de nome engraçado começou a me programar, acho que nem ele tinha ideia do que estava criando. Era para ser um projeto pessoal, daquelas brincadeiras que fazem sucesso no meio da galera nerd da repartição. Vocês conhecem essa empresa, um tal de Google...

Quem imaginava quem em 2004 a internet seria assim tão democrática? Ninguém sabia o que eram redes sociais, apenas sites de amizade! O que fazia sucesso no celular daquela época era o jogo da cobrinha e as pessoas só trocavam mensagens de texto pelo computador. Mas os emoticons, hoje mais conhecidos por emojis, já existiam!

Eu comecei a minha aventura nos Estados Unidos, mas não dei muito certo por lá. Quem resolveu me abraçar foi esse país tropical, irreverente como as camisas de verão do meu pai, onde as pessoas guardam feijão no pote de sorvete e colocam areia com gosto de bacon no prato de comida.

Vocês, brasileiros, gostaram desse negócio da necessidade de um convite para me conhecerem. Teve gente que até pagou por um! Foi uma atitude arrogante minha na época, admito, mas funcionou. Todo mundo batia na minha porta e entrava na maior camaradagem. Era divertido ver o quanto vocês se divertiam com a brincadeira de categorizar seus amigos em “sexy”, confiável” ou “legal” – tinha de dar até três gelinhos de cubo nesse último, lembram?

E as frases inspiradoras que vocês colocavam em seus perfis? E os “testimonials” bregas, que deviam ser apagados, mas vocês esqueciam e deixavam no ar? Isso sem falar das comunidades, que tinham os nomes mais geniais. Minha predileta era aquela “não fui eu, foi meu eu-lírico”. Isso não é demais?

Mas o que eu mais gostava mesmo era o lance do “só add com scrap”. Rapaz, como eu me divertia com quem escrevia isso na descrição perfil, em caixa alta, com um monte de desenhos de peixes e corações formados pela organização de caracteres de texto.

A diversão era tanta que não percebi o momento que vocês começaram a parar de ficar comigo... Como imaginar que seria trocado por esse tal Facebook, mais sem graça que dançar com a irmã? Eu deixava vocês usarem GIFs, baixar música ilegal e não ficava pagando de fiscalizador e defensor da moral, como esse Zuckerberg. Aprontou comigo? Eu deixava na cadeia (de mentirinha), mas era por pouco tempo.

Eu tinha minhas limitações e vários problemas de segurança, OK, mas venham cá: não é melhor um mundo sem feed de notícias? Um mundo sem algoritmos, sem termos como “impulsionar publicação” e sem convites para milhares de joguinhos? Quando sua mãe queria falar contigo no Orkut, ela tinha de enviar um “scrap” e dava tempo de você ler e apagar rapidinho a mensagem. Nesse Facebook não: o mundo inteiro lê, compartilha e curte a vergonha alheia de ter a sua mãe nas redes sociais. Dureza.

Vejam, não quero ser nostálgico nem mal-humorado. Sou muito grato por esses dez anos que vivi com vocês, juntos ou separados, e tenho muito orgulho das conexões que surgiram a partir de mim. Quantos casais eu formei? Quantas amizades não surgiram por conta de mim? Quantas vezes não rompemos os limites da zoeira? Isso não é demais?

Se tem uma coisa que escutei muito na última década é que os brasileiros não têm memória e não valorizam o passado. Como assim, se até hoje sou assunto de mesa de bar? Isso quando não me citam por aí em forma de verbo: “orkutizar”. Falem mal, mas falem de mim, certo?

Sei que não deu para sair no auge como o “Seinfeld” fez no final dos anos 90, afinal, na internet a ascensão e a queda andam próximas demais e a Lei de Moore é pesada. Mesmo assim eu queria um último ato, um último suspiro: o Google vai me desligar no dia 30 de setembro e essa será a data que constará na minha lápide: “Orkut: 24-1-2004 / 30-9-2014”.

Pois é, vou morrer. Só que não tenho um corpo físico para ser enterrado ou cremado, apenas milhares de números codificados. Após essa data irei sumir e se alguém tentar me acessar vai acabar caindo naquela página de “erro”. Se pudesse, eu guardaria tudo o que vocês criaram dentro de um enorme HD externo, com terabytes até dizer chega, mas hoje existe essa tal de nuvem, e confesso que prefiro ser lembrado no céu, não debaixo da terra.

Por isso, se há dez anos eu exigia um convite para que vocês me conhecessem, hoje eu é quem faço um convite: vamos guardar com carinho a nossa história, a nossa memória. O Google criou um tal de Takeout, um serviço que faz o backup de suas fotos, scraps, atividades, testimonials, enfim, tudo o que existe em seus perfis. OK, deve ter muita coisa embaraçadora por ali, mas e daí?

Vamos guardar aquelas imagens vergonhosas de vocês com roupas estranhas ou cortes de cabelo desastrosos. Vamos guardar aqueles textos melosos escritos para amigos que nem são mais seus amigos. Vamos guardar aqueles testimonials pelo simples fato de serem testimonials.

Enfim, é isso. “Live fast, die young”. Não estou triste, mas muito feliz por tudo o que vivemos e compartilhamos. Eu queria apenas ter um milhão de amigos há dez anos e consegui ter 40 milhões só de brasileiros. Quem nesse mundo teve tantos amigos assim?

Isso não é demais?

2 comentários:

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