quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Uma releitura do Natal

Conto da minha autoria, publicado originalmente no Facebook em 25/12/2013.


Nessa história o menino Jesus é preto, pobre e nasceu na periferia de São Paulo, mais precisamente na madrugada do dia 25 de dezembro, em pleno plantão do hospital público local.

Como vocês podem imaginar faltavam os materiais mais básicos para o parto, então a comunidade teve que se mobilizar e acabou que quatro motoboys, cada um de uma favela diferente, vieram no maior pau trazer os bagulhos pro bebê. Três chegaram são e salvos. O outro sofreu um acidente na Marginal Tietê e morreu.

Filho do pedreiro José com a prostituta Madalena, Jesus foi abandonado pelo pai antes mesmo do nascimento, que picou a mula de volta para sua cidade natal, Belém do Pará, assim que sua esposa Maria descobriu a pulada de cerca e o ameaçou com uma faca.

No começo Maria, empregada doméstica, odiava o fato de sua vizinha Madalena ter um filho do ex-marido. Mas logo tomou as dores da mãe solteira e se sentiu também um pouquinho responsável pela criança que nasceria sem pai. Foi assim que Jesus cresceu com duas mães, Maria e Madalena.

Jesus estudou em colégio público, mas aprendeu as coisas da vida na rua. Por insistência das mães frequentou a igreja por um tempo, até que o pastor César Romano abusou de sua inocência.

Revoltado com a situação, encontrou algum conforto com a galera do tráfico e logo se firmou no trampo de misturar a droga pura com outras porcarias. Nessas ficou conhecido pelo milagre da multiplicação das pedras, e assim foi subindo na hierarquia.

Com 20 e poucos anos Jesus era chefe do morro. Uma mistura de bandido da pesada com líder comunitário. Descia o cacete nos playboys sim, mas também sabia cuidar de seu povo. É por isso que ninguém tinha coragem (e vontade) de dedurá-lo para os polícia.

Mas, no final das contas, Jesus não tinha superpoderes e percebeu que não conseguiria expandir seu império sozinho. Ele precisaria de gente que acreditasse no projeto, que estivesse junto para o que desse e viesse. Foi aí que fez uma criteriosa seleção e escolheu 12 manos. 12 apostas.

A coisa ia bem até que Judas, um de seus homens de confiança, resolveu mudar de vida e entrar para a igreja. Aconselhado pelo pastor César Romano, Judas foi até a delegacia e mandou ver na delação premiada. Para Romano isso era negócio, pois colocar Jesus atrás das grades garantia que aquele triste episódio nunca viria à tona.

Preso e jogado em uma cela superlotada, Jesus foi emparedado pelos presos, que resolveram votar em qual dos últimos dois entrantes deveria morrer para liberar espaço. Era ele ou Atenório, um político preso por causa de um escândalo de corrupção. Mas Atenório tinha meios e garantiu um maço de cigarros para cada um da cela.

Lá se foi Jesus, morto aos 33, em uma prisão não muito melhor do que o hospital no qual nasceu. Não ressuscitou, não teve monumentos de ouro erguidos em seu nome, mas, por outro lado, também não serviu de desculpa para nenhuma atrocidade ou picaretagem.

Suas últimas palavras?

- Jesus é o caralho, meu nome é Deuzêncio. Deuzêncio Trindade, sério, tá no RG. O resto é apelido. Coloca direito na lápide hein?

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