terça-feira, 10 de setembro de 2013

Hilário Magro, cidadão de Quiroró

O conto abaixo foi escrito por Rubens Galdieri, que foi meu aluno na última edição intensiva do Curso de Inovação em Storytelling da ESPM SP (agosto 2013). Nessa edição o trabalho final foi opcional.



Meu admirado Sr. Estevão, cidadão de Quiroró, escrevo esta carta porque penso que é meu dever informar o motivo da ausência de Hilário Magro nesta repartição, no dia que ler esta carta. Talvez o Sr. Nem saiba que Hilário Magro faça parte do seu secretariado, mas o fato é que, não só faz parte, como também foi ele quem criou o seu departamento. Antes de mais nada, peço que leia até o fim e que não tire conclusões precipitadas acerca da sua ausência. Sei que o dia que esta carta chegar à sua mesa, completará 4 ou 5 dias que ele não comparece. Reitero que esta carta tem a função de garantir que sua ausência seja notada, uma vez que possa passar despercebida a mesa vazia com uma pilha de papeis ao canto, e longe da máquina de café. Aliás, penso que é oportuno o momento para dizer que a disposição dessa repartição é algo próximo da estupidez. Não se ofenda, pois sei que não foi o senhor quem organizou. O café fica fora do centro onde todos se reúnem e fora da rota dos fumantes que são obrigados a sair em verdadeiros paus-de-araras modernos que partem em direção à cobertura do prédio. Nada contra, se não fosse o fato de que existe uma área aberta ao fundo, já que sua sala dentro do prédio fica no térreo e tem um pequeno quintal, e a cobertura fica 12 andares acima, com elevador que serve até o 9º andar. Bem que eles poderiam ir pra rua, se não fosse o decreto municipal estúpido que proíbe o fumo até 5 quarteirões da prefeitura de Quiroró. Mas voltando ao Hilário, tenho dúvidas se ele não criou essa disposição de mesas para justamente passar despercebido no vai e vem de gente que está sempre com pressa. Pressa de ir ao café ou fumar. Mas para entender essa história, é preciso que voltemos um pouco no tempo.

Era uma vez, uma criança magrela, magrela, magrela, que tinha nascido mais magrela que a magrela que se dizia magrela. O pai dessa criança, sêo José Maria, mais a mãe dessa criança, dona Maria José, fizeram uma promessa que se o menino magrelo, magrelo, magrelo sobrevivesse, faria uma boa ação todos os dias da vida dele, até o dia que morresse, a todos os cidadãos de Quiroró. Não interessa o dia, o menino magrelo, magrelo, magrelo, tinha que fazer uma boa ação, seja lá pra quem fosse, até que todos os cidadãos de Quiroró recebessem uma boa ação do menino. Aí ele estaria livre da promessa.

Todo dia esse menino magrelo, magrelo, magrelo, desde que começou a entender o que era ser gente, teve que fazer uma boa ação. E ajudava cachorro na rua, e varria a frente da casa da idosa, e levava sacola pra grávida que estava cansada e assim foi levando a vida, pagando a promessa que ele não tinha prometido, mas que tinha sobrevivido à magreza, magreza, magreza. Essa era a promessa que seus pais tinham feito e pelo visto estariam lá todos os dias pra lembrá-lo.

Até que numa bela manhã de quarta-feira, sêo José Maria, chamou Maria José e disse que estava passando mal. Sr. Estevão, cidadão de Quiroró, garanto-lhe que Maria José, apegada como era a José Maria, deve ter entrado em desespero. E lamento informá-lo que o desespero não foi à toa, pois naquele dia, morreu sêo José Maria. O filho, magrelo, magrelo, magrelo, como o Sr. já deve ter percebido o rodeio, é o Hilário Magro. Até ai, nada justifica a sua falta nesses dias penso que o prestimoso Sr. Estevão, esteja confuso, pra não dizer de saco cheio, de ler essas linhas sobre o amigo Magro. Mas voltando, ao principal, a vida continuou com o passar das horas, pra ser exato, 12 horas.

Só que ninguém contava que na manhã seguinte, também morreria a dona Maria José, dedicada esposa de José Maria e mãe do Hilário Magro. Quando estavam pra baixar o caixão do sêo José Maria no buraco, a dona Maria José caiu junto. Uns disseram que foi emoção, outros que foi saudade e até existiu quem insinuasse que fosse um empurrãozinho do Hilário pra ele não ter mais que fazer boa ação compulsória pra mais ninguém. Se isso foi, ou não foi, o fato é que agora ele estava livre pra fazer o que bem entendesse de todos os dias da vida dele.

E então, Hilário Magro vendeu a casa dos pais, alugou um quartinho pequeno, voltou a estudar e o resto o senhor já sabe. Entrou pra carreira pública e até hoje, quando o Sr. ler essa carta, fazia parte do seu secretariado. Ilustríssimo Sr. Estevão, é assim que talvez o senhor entenda as circunstâncias que levaram o Hilário a não estar presente neste momento. Após o Hilário sofrer a grande perda dos pais, nada mais poderia reconfortá-lo, a não ser a oportunidade de ser dono do seu nariz e ir viver o mundo fora de Quiroró.

Dali pra frente, ele começou a arrumar as malas, pegou o restinho de dinheiro que tinha no banco e se preparou pra partir. Mas o que Hilário tem de responsabilidade e consciência, o Sr. algum dia deve ter notado. Até porque eu sei que o senhor mesmo já recebeu uma boa ação dele. E a esposa do senhor também. E Hilário, fazendo as contas, calculando a densidade demográfica de Quiroró, percebeu que no final das contas,não faltava muita gente pra ele cumprir 100% a promessa dele. Pra falar a verdade, faltava apenas uma pessoa: esta que vos escreve. E assim que escutei a campanhia, já sabia que era Hilário à minha porta pra pagar a sua dívida e assim, sair de Quiroró pra sempre. Sr. Estevão, por favor, guarde sempre essas linhas nas suas lembranças, pois é importante que a memória de Hilário seja lembrada de forma digna. Ele veio a mim, a última pessoa de Quiroró a quem ele poderia fazer a sua última boa ação e assim, pagar sua promessa, e digo-lhe que cumpriu à risca. Estou em Quiroró desde que Hilário nasceu, dia este que vim buscá-lo e fui impedido por uma promessa. Promessa essa que acabou quando ele fez a boa ação de me encontrar e poupar-me do martírio que é viver em Quiroró. Deixo avisado aqui, que Hilário Magro, cidadão nascido em Quiroró, finalmente cumpriu com seu destino.

Atenciosamente,

Inevitável

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