terça-feira, 10 de setembro de 2013

Escriterapia

Escriterapia é um conto da minha autoria. Queria publicar mais desses por aqui, e é justamente a partir dessa angústia que escrevi e agora publico esse.


Certa vez um advogado especializado em testamentos me contou o caso de um escritor que guardava suas histórias pra si. Eram várias, uma melhor que a outra, mas nunca ganhavam o mundo. Um dia essas histórias viraram pequenos nódulos cancerígenos.

Então o escritor foi ao médico, que o alertou sobre a necessidade de parar de fumar e começar sessões de escriterapia com urgência. Mas ele, teimoso como sempre, não tinha tempo nem coragem pra isso. Diziam que a escriterapia causava frio na barriga, e o escritor nunca gostou de andar em montanhas-russas.

Os nódulos antigos foram aumentando, novos surgiram, e em pouco tempo o quadro evoluiu para uma metástase. Entre uma despedida e outra o escritor conseguiu ao menos escrever alguma coisa, seu testamento.

Ele havia deixado, por escrito, mais de 50 argumentos de histórias. Pequenos diamantes não lapidados que contavam, de forma resumida, suas grandes ideias. Cada argumento foi endereçado a uma pessoa diferente, havendo na lista parentes, amigos e até alguns de seus escritores preferidos. A única exigência é que esses argumentos fossem trabalhados e virassem livros, caso contrário funcionariam como uma maldição, podendo, eventualmente, se transformar em novos nódulos cancerígenos no corpo do novo hospedeiro.

A partir daí todos os beneficiários começaram a escrever, e quem não se achou digno desse desafio preferiu passar pra frente como forma de se livrar da suposta maldição. Dizem que um dos livros de Luiz Fernando Veríssimo teve origem em um desses argumentos, mas, como não foi creditado oficialmente, ninguém sabe o que é verdade e o que é mito.

O que se sabe é que praticamente todos esses argumentos herdados viraram livros de sucesso e seus autores ganharam muito dinheiro, além de ficarem famosos. E aí, alguns dias atrás, esse tal advogado recebeu uma mensagem psicografada do escritor. Ele disse que está bem e feliz por observar, lá do céu, que suas histórias fazem sucesso e que os leitores querem mais obras inspiradas pelo defunto-autor. Quem sabe na próxima encarnação. Agora ele se diz cansado para escrever, mas quer que o advogado cobre os direitos autorais e psicografe a grana lá pra cima.

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