terça-feira, 25 de junho de 2013

Fotografia e Storytelling - parte 2

O Niraldo Nash, que estuda a relação entre storytelling e fotografia na UNB, recentemente me entrevistou sobre o assunto e publicou lá no blog do Projeto Digifoto. Replico aqui, na íntegra, a segunda parte da entrevista, que acabou ficando com um tom de debate. O link original é esse.

Foto: Xícara de porcelana japonesa finíssima, quase centenária. Quando o fundo é exposto a uma fonte de luz, "revela" diferentes fotografias. Coleção da designer de jóias e escultora Mara Nunes, fotografada pela arquiteta Silvana Andrade.

Esta é uma série de quatro posts sobre Fotografia e Storytelling, fruto de conversas e discussões com Bruno Scartozzoni, Fernando Palacios e Martha Terenzzo, que oferecem o curso sobre essa área na Escola Superior de Marketing de São Paulo - ESPM.
Bem-vindos ao Digifotoweb e grato pela significativa e importante contribuição para esse assunto!!!


Fotografia e Storytelling - Entrevista com Bruno Scartozzoni - Parte 2

Bruno Scartozzoni é um profissional multi-disciplinar de planejamento e estratégia de comunicação com mais de 10 anos de experiência, atendendo clientes como Nokia, Nestlé, Sony, AmBev e Sebrae, em passagens pelo Banco de Eventos, Aktuell e Talk Interactive.
Graduado e pós-graduado em Administração Pública e Administração de Empresas, em ambos os casos pela FGV. Foi um dos fundadores da Storytellers, primeira agência brasileira especializada em criar histórias para marcas. Hoje é sócio e diretor de planejamento da Ativa Esporte, professor de storytelling e transmídia da ESPM SP e da ECA-USP, colaborador do Update or Die e editor doblog Caldinas.

1) Obrigado, Bruno, muito interessante a primeira parte da entrevista. O exemplo do conto do Hemingway é instigante. A primeira questão foi justamente para discutir esse elemento ficcional. Pelo que tenho observado, o storytelling vem sendo utilizado em várias áreas, inclusive nas organizações. Lendo o livro livro "Storytelling in Organizations : Why Storytelling Is Transforming 21st Century Organizations and Management" me surpreendeu ver, Laurence Prusak, um dos gurus da Gestão do Conhecimento, abordando o assunto.

Pois é, isso tem acontecido. Mas é preciso separar o joio do trigo. Há quem entenda o conceito e realmente tente aplicá-lo às suas respectivas áreas, como também há quem não entenda o conceito e entre nessa pelo modismo, porque "pega bem" usar uma buzz word. Não sei em qual caso está o livro que você citou, mas já li vários artigos por aí tentando dar uma "acochambrada" nas coisas para forçar com que elas caibam em algo que já é feito de um jeito, e nem se tem pretensão de mudar. Por exemplo, algumas pessoas dizem que no storytellingpara marcas, o personagem é o produto. Isso não faz o menor sentido, a menos que o produto pense, haja e sinta como um ser humano, como o Variguinho (bom exemplo dos anos 90) ou o Dollynho (péssimo exemplo atual). Mas obviamente não é disso que esses artigos estão falando. Eles só querem validar algo que já existe com um conceito da moda.

2) Pruzak escreveu uma frase que me chamou a atenção: "Stories about our history". A rigor, a diferença que você estabelece entre "story" e "history" é perfeita, mas se pensarmos na frase de Prusak, o que temos realmente sãohistórias sobre a nossa história e essas possuem uma dinamicidade à luz de novos fatos. A Guerra do Paraguai, por exemplo, vem sendo recontada em vários livros, à medida que os autores e pesquisadores têm acesso a novos documentos.

Então, aí a gente começa a entrar em um terreno bastante conceitual. Mas OK, peguemos a Guerra do Paraguai como exemplo. A "history" seria a sequência de fatos, e essa eu sei que tem sofrido muitas contestações. Por acaso conheci alguns paraguaios recentemente e conversamos bastante sobre isso. A visão brasileira diz que o Brasil sofreu uma pressão da Inglaterra para atacar. A visão paraguaia diz, em resumo, que o Solano era expansionista mesmo e que, considerando a época e o contexto, a guerra foi um resultado de conflito de forças da região, nada tendo a ver com a Inglaterra.

Me parece que de uns tempos para cá vários autores brasileiros estão apontando essa segunda visão como mais correta, historicamente falando, e a primeira teria um forte componente político dentro de uma crença de que nossas mazelas são resultado das ações imperialistas etc. Mas, até aqui, estamos falando de "history".

"History" vira "story" quando esses fatos são vistos pelo ponto de vista de um ou mais personagens, e quando se toma distância da frieza dos fatos e se adiciona emoção. Se for possível recontar a Guerra do Paraguai com esse tipo de enquadramento, aí estamos falando de storytelling.

Pegando a 2ª Guerra Mundial para fechar o raciocínio, podemos contá-la de dois jeitos:

No ano tal a Alemanha elegeu um novo presidente, Adolf Hitler, que tinha um projeto expansionista para o país. Pouco tempo depois a Alemanha começou a invadir e anexar países vizinhos. etc.

Era uma vez um cara chamado Adolf Hitler. Um artista de não muito sucesso que se envolveu em política e, depois de ser preso, acabou seduzindo o povo alemão com seu discurso radical. Pouco tempos depois ele torna presidente da Alemanha e começa a construir um aparato militar que, mais para frente, daria início a anexações e conquistas dos países vizinhos. etc.

A primeira é HISTORY, a segunda é STORY.

3) Em termos de imagem, sabemos muito bem que o "Grito do Ipiranga" não foi nada parecido com o que Pedro Américo retratou em sua pintura de 1888; de como Stalin eliminou Trotsky das fotografias; até manipulações mais recentes, como da British Petroleum, tema de um post no nosso blog.

São ótimos exemplos de manipulação da informação. Mas o que essas fotos mudam são os fatos históricos (history). A história (story) está em quem ordenou a mudança, porque ordenou a mudança, qual era o objetivo da pessoa, quais foram as consequências, o que foi transformado por causa disso, e como o conflito se resolveu.

4) O que me deixou em dúvida, perante à linha acadêmica do post, é a conclusão de que storytelling se refere a "... ficção, conto, literatura etc.". Vou dar um exemplo pessoal, partindo do princípio de que narrativa e storytelling têm o mesmo significado para alguns autores. Em minha tese pretendo trabalhar com imagens e narrativas de ferroviários, familiares e descendentes. Nesse caso, estaria cometendo um erro ao utilizar o termo "storytelling" ou poderíamos ampliá-lo de modo que pudesse abarcar essas narrativas como história, no sentido de depoimentos reais?

Depoimentos reais sobre histórias de vida são "story". Depoimentos reais sobre fatos são "history". Então depende do tipo de depoimento que você vai tomar.

"A estação de trem foi construída em 1967" - history

"Eu cheguei aqui em 1967, quando a estação de trem tinha acabado de inaugurar, e lembro que era bonita sabe? Fiquei de boca aberta ao vê-la pela primeira vez" - story

O primeiro geralmente é o depoimento técnico. O press release que a empresa manda. Sem emoção. Sem envolvimento.

O segundo é um depoimento que parte de um ponto de vista. Emocional. Potencialmente envolvente. Portanto, com maiores chances de conquistar a atenção das pessoas.

Essa pergunta vale também para a nova timeline do Facebook. Na época do lançamento o Mark disse que o Facebook agora tinha storytelling. E eu digo que depende. O espaço está lá, mas o que você vai escrever nesse espaço? Isso muda tudo.

No próximo post, depoimento inédito em vídeo de Fernando Palácios, o reconhecido "W'nderer Writer e a Volta ao Mundo", gravado em Singapura, exclusivo para o DIGIFOTOWEB.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

terça-feira, 18 de junho de 2013

Fotografia e Storytelling - parte 1

O Niraldo Nash, que estuda a relação entre storytelling e fotografia na UNB, recentemente me entrevistou sobre o assunto e publicou lá no blog do Projeto Digifoto. Replico aqui, na íntegra, a primeira parte da entrevista. O link original é esse.


Esta é uma série de quatro posts sobre Fotografia e Storytelling, fruto de conversas e discussões com Bruno Scartozzoni, Fernando Palacios e Martha Terenzzo, que oferecem o curso sobre essa área na
Escola Superior de Marketing de São Paulo - ESPM.
Bem-vindos ao Digifotoweb e grato pela significativa e importante contribuição para esse assunto!!!


Fotografia e Storytelling - Entrevista com Bruno Scartozzoni - Parte 1

Bruno Scartozzoni é um profissional multi-disciplinar de planejamento e estratégia de comunicação com mais de 10 anos de experiência, atendendo clientes como Nokia, Nestlé, Sony, AmBev e Sebrae, em passagens pelo Banco de Eventos, Aktuell e Talk Interactive.
Graduado e pós-graduado em Administração Pública e Administração de Empresas, em ambos os casos pela FGV. Foi um dos fundadores da Storytellers, primeira agência brasileira especializada em criar histórias para marcas. Hoje é sócio e diretor de planejamento da Ativa Esporte, professor de storytelling e transmídia da ESPM SP e da ECA-USP, colaborador do Update or Die e editor doblog Caldinas.

1)  No ambiente acadêmico, em geral (com exceções para a área de Comunicação) costuma-se utilizar mais o termo “narrativa” do que “storytelling”. Há diferença entre os termos? Pode-se afirmar que a narrativa é um tipo destorytelling?

Essa pode ser uma pergunta bastante capciosa, então tentarei responder da forma mais honesta possível. Palavras como "narrativa", "storytelling" e "história" vem sendo utilizadas à exaustão nos últimos tempos, independentemente da área. Inevitavelmente isso faz com que seus significados comecem a se perder e, na prática, as pessoas começam a utilizá-la para qualquer coisa. Sendo assim, essa resposta depende muito do se entende desses conceitos.

Storytelling, traduzido para português, seria contar histórias, ou contação de histórias. Mas, dentro da língua inglesa, é preciso entender que Story Historysão coisas diferentes. "Story" é basicamente um padrão de estrutura narrativa, na essência um personagem superando obstáculos para alcançar um objetivo. Essa estrutura geralmente está ligada à ficção, mas nem sempre, afinal existem documentários e "stories" baseados em fatos reais. Já "History" corresponde aos fatos como realmente aconteceram, o mais próximo possível da realidade. "History" de Roma. "History" da vida privada etc. Em português uma palavra só, "história", abraça esses dois significados. Mas quando estamos falando destorytelling, o significado é o que corresponde à "story".

Continuando o raciocínio, quando se busca por narrativa nos dicionários da língua portuguesa um dos significados é justamente essa história do storytelling, no sentido de ficção, conto, literatura etc. Então, por esse ponto de vista, eu diria que narrativa e storytelling são basicamente a mesma coisa.

 2) Sua orientação é do uso do storytelling para a publicidade. Contudo, como você vê a utilização do storytelling em outras áreas de pesquisa, como por exemplo, a chamada “história oficial” a partir de imagens?

Certa vez Ernest Hemingway escreveu um conto usando apenas 6 palavras. For sale: Baby shoes, never worn. Em uma tradução livre para português seria "Vende-se: sapatos de bebê, sem uso". Mas onde está o personagem? E o conflito? E cadê o climax? O ponto é que as vezes você não precisa explicitar todos esses elementos. Um conto como esse faz com que o leitor imagine toda a história. Tudo que aconteceu antes e depois. Os personagens envolvidos. As emoções que cercaram aqueles fatos. Na prática, a história está na cabeça de quem lê. Aliás, mesmo em um livro de 1.000 páginas ou em um filmes de 4 horas há lacunas que serão preenchidas por quem lê ou assiste, não é mesmo?

Então, se é possível escrever um conto com 6 palavras e deixar que o leitor imagine o resto, também é perfeitamente possível contar uma história por meio de uma ou mais imagens. Mas acho que isso só responde metade da pregunta.

Como eu disse lá atrás, as histórias (stories) geralmente estão ligadas à ficção, mas não necessariamente. O desafio é, a partir da coleta de fatos reais, estruturar uma narrativa que tenha ao menos um personagem superando obstáculos para alcançar um objetivo. Esse é o trabalho, por exemplo, de um documentarista. Ainda que o documentário seja, por exemplo, sobre um período histórico, é bastante usual que o diretor tente transmitir aqueles fatos por meio de um ou mais pontos de vistas de pessoas que estavam lá. E isso é essencial, afinal, o storytelling nada mais é do que uma técnica de transmissão de conhecimento por meio da emoção. E para gerar emoção é preciso de um ponto de vista humano.

Fechando a longa resposta, quando penso em "histórias oficiais" contadas a partir de imagens lembro imediatamente de duas fotos famosas. Uma é a daquele estudante chinês tentando parar um tanque sozinho, de forma pacífica, na Praça da Paz Celestial, e a outra é da menina nua, fugindo da bomba de napalm no Vietnã. São duas imagens tão ricas de significados e histórias que eu até posso deixar com que elas concluam a minha resposta. Mas isso só é possível porque elas trazem personagens, conflitos e muitas emoções.

3) Você poderia nos dar um exemplo de como, a partir de uma imagem, criar um storytelling? E a partir desse exemplo, como pode ser utilizado em termos de transmídia?

Acho que eu já acabei falando um pouco sobre isso na resposta anterior, mas nunca é demais lembrar. Para contar uma história faz-se necessário um personagem, que geralmente é uma pessoa mesmo, mas pode ser qualquer que pense, aja e sinta como uma pessoa. Um exemplo é o filme Wall-e. O personagem é um robô, mas um robô com sentimentos. Esse personagem precisa ter um objetivo, ou seja, um motivo para que as pessoas o acompanhem em sua jornada. Esse objetivo pode ser conquistar uma menina, derrotar um inimigo, sobreviver a uma tragédia. Em outras palavras, alguma tensão é necessária para que as pessoas se preocupem com aquele personagem. É aquela famosa sensação de "Meu Deus! E agora, será que ele vai conseguir?".

Contar uma história a partir de uma imagem é mais ou menos como fazer um mini-conto, ou seja, esses elementos não necessariamente precisam estar explícitos, mas devem estar lá de alguma forma, ou seja, a imagem deve dar os insumos para a imaginação de quem está olhando para ela.

Para falar de transmídia é necessário, antes de tudo, entender o conceito. Transmídia é basicamente uma nova forma de contar uma história, em que mídias diferentes mostram pedaços complementares e, idealmente, independentes dessa narrativa. Isso é diferente de, por exemplo, adaptar a história de um livro para o cinema. Em uma proposta transmídia as histórias do livro e do filme são diferentes, porém complementares, ou seja, fazem parte do mesmo universo e deixam a experiência mais rica para quem consome ambas.

Esse tipo de raciocínio tem sido usado principalmente para a indústria do entretenimento, mas, mais recentemente, começou a ser adotado também por outras áreas, como o jornalismo. Nesse sentido é fácil imaginar a aplicabilidade do conceito em uma reportagem que utiliza texto, áudio, vídeo e imagens.

A entrevista com Bruno Scartozzoni segue em um próximo post com debate!!!

terça-feira, 11 de junho de 2013

Storytelling na luta contra o câncer



O que dizer sobre esse case? Além de ser uma dessas idéias simples e geniais que todo mundo gostaria de ter tido, não há muito o que acrescentar além do burburinho que já foi gerado.

Mas, agora que o impacto inicial já passou (se você ainda não viu, dá play logo!), vale a pena refletir sobre o poder do contexto na cultura e na nossa percepção da realidade. Já faz algum tempo que escrevi um post sobre o efeito de uma história sobre o valor de um objeto. Aqui a ideia é parecida. Colocar as crianças com câncer dentro do mundo dos super-heróis, tornando um ambiente hostil e triste em algo mais divertido.

Como estamos falando de criança não é preciso fazer muito esforço. Encapar a "fórmula" como se fosse daquele mundo já é mais do que o suficiente para colocar os pequenos pacientes dentro de outro universo. Mas aí deixo três questões pra gente pensar juntos:

1) Gostaria de saber se essas crianças chegaram a ter alguma melhoria perceptível no tratamento em relação às que não foram impactadas pela ação. Eu aposto que sim. Deve haver algum tipo de efeito placebo na Superformula. Explicando de uma forma mais científica, é bem capaz que a alegria e a esperança proporcionadas pela ação tenham impacto no sistema imunológico desses pacientes.

2) Até que ponto seria possível pensar em ações desse tipo para adultos? Para isso bastaria a Superformula ou nós, crescidinhos, precisamos de mais para sermos convencidos de que aquela já é outra realidade?

3) Se os super-heróis fossem da Marvel haveria alguma diferença no resultado? Brincadeira, só estou provocando os fanboys de ambos os lados. Mas vale lembrar que em um passado recente a editora coloriu algumas capas de revistas de rosa, como forma de apoiar a prevenção ao câncer de mama! Postei sobre isso aqui.


segunda-feira, 10 de junho de 2013

Quando rap encontra os videogames

O post abaixo foi originalmente publicado em 17 de janeiro de 2010 no Update or Die. A referência é antiga e de lá para cá eu até passei a gostar mais de rap. De qualquer forma vale o resgate. :)

Esse clipe é um deleite para quem gosta de videogames antigos, do telejogo ao Nintendo 8 bits.
E nunca fui fã de rap, mas confesso que depois dessa experiência passei a olhar para o gênero com mais carinho.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Quer melhorar sua percepção da realidade? Compare!



Lisa Bu é a primeira funcionária do TED a participar como palestrante. Nesse vídeo ela conta um pouco de sua história pessoal, de uma garota que cresceu na China até se tornar uma mulher que vive nos Estados Unidos, e a paixão pelos livros que desenvolveu durante essa jornada.

Aliás, mais do que livros, sua paixão é por literatura comparada. Ou linguagem comparada. Ou comportamentos comparados. Enfim, comparar coisas, segundo ela, é uma forma muito eficaz de se conectar com as pessoas e entendê-las.

Concordo. Afinal, a gente sempre tende a voltar meio apaixonado pelos locais para onde fomos viajar, não é? As comparações são inevitáveis e, de certa forma, acabamos ficando com as melhores partes. Mas, por outro lado, também inevitável voltar gostando um pouco mais do lugar em que você vive, por mais defeitos que ele tenha. Mesmo que você more no Brasil e esteja voltando da Suiça.

Isso acontece direto comigo (a sensação como um todo, e não viajar para a Suiça, infelizmente) e acho que tem muito a ver com a palestra da Lisa Bu.

foto de uma vendedora de folha de coca,
que tirei no Peru, durante minha última viagem