sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Grandes Histórias, Pequenos Negócios

O post abaixo foi escrito para o blog da agência Goomark, a convite do meu ex-aluno Luís Felipe Cota. A publicação original ocorreu em 5 de dezembro de 2012, e pode ser encontrada nesse link.


Algum tempo atrás pude presenciar, aqui em São Paulo, o curioso fenômeno da proliferação das sorveterias especializadas em frozen yogurt.

Sim, o produto até que é gostoso, dizem que é saudável e, pelo que já ouvi falar, as margens de lucro são altíssimas. Com essa combinação “infalível” não é a toa que muita gente viu ali a oportunidade de montar seu negócio e ganhar um dinheiro relativamente fácil.

Hoje, poucos anos depois do início dessa onda, já perdi a conta de quantas vezes passei em frente a um lugar e pensei “olha, mais uma sorveteria de frozen yogurt fechada”.

Toda vez que isso acontece fico imaginando alguém que tinha um dinheiro guardado e o sonho de ser empreendedor. Um dia essa pessoa leu em alguma revista especializada, ou na seção de Economia do jornal, sobre a mina de ouro que representava o frozen yougurt. E aí veio a idéia de investir em um negócio assim. O problema, como vocês devem ter reparado, é que todo mundo teve essa idéia ao mesmo tempo.

Conheço uma loja, inclusive, que é um combo definitivo dos modismos de negócios. Na inauguração o conceito dela era vender frozen yogurt e cup cakes. Os cup cakes deixaram de existir no primeiro mês de operação, e o frozen, visivelmente aos trancos e barrancos (a loja está cada vez mais decadente), continua lá até hoje. Uma pena, porque o produto é bom e tem wifi grátis.

Um dos motivos para esse fechamento das lojas de frozen yogurt é simples: não há demanda suficiente para tanta oferta. Em outras palavras, analistas e empresários provavelmente não se deram conta que, por mais saboroso e saudável que seja o produto, ele dificilmente sairá do nicho. Em contrapartida, nesse exato momento, vemos uma nova onda de sorveterias à moda antiga (base de leite) e com qualidade premium florescendo na cidade. E as filas são enormes!

O outro motivo, que envolve questões mais subjetivas, é o fato de muitos desses negócios terem sido lançados, aparentemente, sem nenhuma paixão envolvida. Ou vocês acham que São Paulo tem dezenas, talvez centenas, de pessoas que sonharam a vida toda em abrir uma loja de frozen yogurt? Não, né?

Não me entendam mal. Sou administrador de formação e sei que, frente aos ativos e passivos de uma empresa, paixão é algo próximo do desprezível. Ou pelo menos é o que os livros dizem. Talvez esse fator, de fato, não seja essencial para o sucesso de uma empresa, Mas, depois de anos de observação, posso garantir, por experiência, que é sim uma baita vantagem competitiva.

Pensando nesse cenário de excesso de lojas de frozen yogurt um eventual dono realmente apaixonado pelo produto que vende certamente aumentará suas chances de sobrevivência por um apego maior aos detalhes, um faro de inovação que os competidores não tem e, se trabalhar bem, uma boa história para contar.

O fato é que paixões não brotam do nada, e sim de uma experiência marcante, um trauma na infância, uma herança cultural etc. Em outras palavras, paixões possuem origens em pessoas e suas histórias de vida. E alguém apaixonado por algo é, invariavelmente, mais interessante do que alguém que toma suas decisões por meros cálculos racionais (ou por causa de uma reportagem da revista especializada). Pessoas apaixonadas são mais críveis, assim como seus negócios. E é aí que eu queria chegar.

Existe um restaurante italiano aqui em São Paulo do qual sempre ouvi a seguinte história. O dono era um dos herdeiros de uma família muito bem sucedida, dona de uma indústria. Lá pelas tantas o cara vende a parte dele na empresa, pega o dinheiro, e resolve ir para a Itália estudar culinária, sua paixão. Depois de um tempo ele voltar para cá, abre seu primeiro restaurante (depois viriam outros) e começa uma muito bem sucedida carreira como chef e administrador.

Não sei o quanto dessa história é verdade e o quanto é ficção. “Quem conta conto aumenta um ponto”, e certamente há muitos pontos na versão que eu ouvi, e tantos outros na versão que eu estou contando. Mas, por outro lado, “onde há fumaça há fogo”, ou seja, alguma coisa deve ser verdadeira.

Aposto que só de ler a história alguns de vocês já estão muito curiosos para saber quem é o chef e quais são os restaurantes. E o motivo é simples. Qual a chance de um prato preparado por alguém que abre mão de uma vida confortável para aprender tudo sobre sua paixão ser bom? Qual o nível de cuidado que esse cara deve ter com seus restaurantes?

Quantas vezes você já ouviu falar sobre um novo negócio com um mito de origem desse tipo? Às vezes surge algo assim e, via de regra, costuma valer a pena. E aí eu me lembro de já ter ouvido muitas vezes aquela pergunta: como eu faço para contar a história da minha marca/negócio/empresa?

Em primeiro lugar, histórias nunca são sobre marcas, negócios e empresas, mas sim sobre pessoas e seus sentimentos, desejos e lutas pessoais. Então, a forma mais fácil de fazer isso, sobretudo no caso de pequenos negócios, é explorando a própria trajetória do dono, daquele que, no final do dia, vai zelar pela experiência e satisfação dos clientes. Uma boa história é a melhor garantia de um serviço bem prestado.

O problema (provavelmente o caso dos frozen yogurts) acontece quando não há sentimentos, desejos e lutas pessoais que levaram seus donos até lá. Quando não existe isso, não existe história a ser contada. E aí se perde a chance de criar algo muito maior do que a nova sorveteria do bairro, resultado de uma planilha fria e inanimada.

3 comentários:

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