segunda-feira, 4 de junho de 2012

Storytelling é sobre a imperfeição humana



Recentemente o Brain Pickings publicou uma ótima resenha de um livro que eu não li, mas que parece ser bem interessante: The Spirituality of Imperfection: Storytelling and the Search for Meaning.

Pelo que vi não existe em português, mas dá para comprar na Amazon em versão papel ou eletrônica.

Permitam-me copiar aqui uma citação que encontrei na resenha:
Without imperfection’s ‘gap between intentions and results,’ there would be no story.

[…] Listening to stories and telling them helped our ancestors to live humanly — to be human. But somewhere along the way our ability to tell (and to listen to) stories was lost. As life speeded up, as the possibility of both communication and annihilation became ever more instantaneous, people came to have less tolerance for that which comes only over time. The demand for perfection and the craving for ever more control over a world that paradoxically seemed ever more out of control eventually bred impatience with story. As time went by, the art of storytelling fell by the wayside, and those who went before us gradually lost part of what had been the human heritage— the ability to ask the most basic questions, the spiritual questions.
É isso. Histórias refletem a imperfeição humana. Uma história só existe a partir do gap entre a expectativa e a realidade, como já mostra o famoso gráfico do Robert Mckee, guru dos roteiristas de Hollywood.


Também não é a toa que as boas histórias são cheias de dilemas e escolhas impossíveis. A vida não é fácil. E como as histórias servem para preparar as pessoas para a vida, os autores não podem facilitar as coisas para os seus personagens. Esse é o tal do conflito.

Aí, inclusive, está uma das principais diferenças entre o storytelling e a publicidade tradicional. Os famosos "brand books" exigem que tudo saia perfeito, que haja sincronia e harmonia em toda superfície, analógica ou digital, onde a marca seja projetada. Nada pode sair do controle. NAS HISTÓRIAS TUDO DEVE SAIR DO CONTROLE.

São dois raciocínios opostos. E esse embate, de certa forma, representa a sinuca em que a comunicação se encontra. Fazer as coisas do jeito antigo não dão o mesmo resultado de antes. Já o jeito novo...bem, a maioria não está confortável com isso, mas os poucos que estão possuem uma enorme vantagem competitiva.

Me permitam usar o exemplo da propaganda de margarina para fechar o post.

Algum tempo atrás o raciocínio era mostrar a família perfeita, onde o marido e a esposa acordam de bem, as crianças dão trabalho em nível suportável, o cão da família sorri latindo (essa expressão eu tirei de uma música do Roberto Carlos) e a mesa de café está posta. Ninguém é assim, mas todo mundo gostaria de ser, ou seja, essa cena gera inspiração, mas não identificação.

É exatamente por isso que em um ambiente de excesso de informações, onde tudo compete com tudo pela atenção das pessoas, a chance dessa cena ganhar a guerra é baixa. Do ponto de vista prático uma cena irreal dessas não oferece nenhum tipo de informação, conhecimento ou sentido para a vida de ninguém. Mesmo nas histórias com finais muito felizes o caminho até lá é recheado de problemas. Sem contar a expectativa gerada que, mais cedo ou mais tarde, será convertida em sofrimento.

Com tanta coisa mais interessante disponível é óbvio que a publicidade vem perdendo a batalha pela atenção. Mas então, como uma cena dessas poderia se transformar em uma história?

O despertador toca mas o casal já está acordado faz tempo. Mais uma noite de insônia. Na noite anterior Ricardo havia recebido uma promoção importante no trabalho, mas teria que se mudar de cidade mais um vez, justo quando suas duas filhas já estavam se adaptando ao colégio. Silvia, sua esposa, é freelancer e sempre conseguiu se virar razoavelmente bem com essas mudanças, mas dessa vez ela queria priorizar as meninas. Então passaram a noite toda discutindo até chegar em um consenso. Mas isso era o de menos, porque eles sempre brigavam mas depois se resolviam na cama. O que tirou-lhes o sono de verdade era a conversa que teriam com Vitória e Mariana na manhã seguinte.

Então Ricardo e Silvia põe a mesa do café da manhã com todo o cuidado e esperam a hora das crianças acordem, sempre um pouquinho mais tarde. Elas chegam, como em uma manhã qualquer, e em um primeiro momento estranham a organização e fartura da mesa. Uma delas brinca: "mãe, vão filmar uma propaganda aqui?".

Os pais se dão as mãos embaixo da mesa e esperam, apreensivos, as crianças comerem. Vitória devora sua tigela de cereais com leite e Mariana é adepta do pão com margarina e café com leite. Ambas dão as últimas colheradas e mordidas, respectivamente, e aí chega a hora de abrir a boca e dar a notícia. "Filhotas, a gente vai ter que se mudar de novo" - Vitória olha feio para o pai - "Mas calma, dessa vez a culpa é da mamãe tá?".

E o pai prossegue "Eu posso imaginar o quanto é chato pra vocês se mudarem de novo, mas tudo na vida tem o lado bom. Vocês vão conhecer uma outra cidade, fazer novos amigos. Agora tudo parece ruim, mas essas coisas a gente vai acumulando, e mais tarde isso as fará mais especiais do que já são".

"Mas e a Dalila mãe? Podemos levar a Dalila?", pergunta Mariana. Nessa hora a cadela Dalila, sentindo a situação, vem triste para perto da mesa. "Claro que pode", responde Silvia. "E tem mais, não importa onde estivermos sempre seremos a mesma família. Isso é o que mais importa. Eu, o papai, vocês e a Dalila". Dalila late.

Nisso o ônibus da escola chega e as meninas saem correndo. Silvia e Ricardo se olham e ele diz "Bom, acho que vamos ter que fazer mais cafés da manhã especiais para compensar a notícia". Silvia responde "Querido, eu falei sério sobre aquele papo de família unida. Daqui pra frente todos os cafés terão que ser especiais". O casal se abraça.

Fim

a dica da resenha veio da Fabiane Secches

Um comentário:

  1. Perfeito! Adorei essa versão "comercial de margarina" com conflito, com verdade humana. E você escreveu algo muito interessante: o momento de felicidade não só é o resultado de um conflito que se resolveu, como também gera a expectativa que um conflito surja depois.

    É como imaginar a cena perfeita do café da manhã, felicidade pura, e um dos filhos resolve aproveitar o momento e dizer: "Mãe, sou ateu!" rs

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