sexta-feira, 2 de março de 2012

Histórias, por Julio Vasconcellos

A coluna abaixo foi escrita pelo Julio Vasconcellos, 31, economista, fundador e presidente-executivo do Peixe Urbano. Saiu ontem, na Folha de São Paulo. A dica foi do Ricardo Joseph.


Vale a leitura.




Com a ascensão do tema de empreendedorismo na mídia brasileira, com muita frequência fala-se a respeito de estratégia de comunicação para empreendedores e "startups".

Há dois anos, quando decidi empreender no mercado brasileiro, estabeleci, em parceria com a nossa equipe de comunicação, três princípios que seriam seguidos em toda a nossa estratégia.

Foram muito úteis em tudo o que fizemos e acho que são aplicáveis a outros contextos em que estamos tentando vender ideias -seja para a mídia em geral, seja em reuniões entre executivos dentro da empresa, seja em reuniões de condomínio.

O primeiro: conte sempre uma história. Ao passar uma semana de férias em Israel, percebi o quanto esse princípio é antigo. A experiência do "plano de comunicação" das instituições mais antigas do mundo, as religiões, já evidencia isso.

Os princípios teológicos mais complexos sempre foram propagados por meio de parábolas cheias de drama, de humor e de finais surpreendentes. As cores emocionais e os personagens das narrativas fazem as histórias serem lembradas.

Luiza Trajano e o finado comandante Rolim talvez sejam os melhores exemplos disso de que recordo no mundo empresarial.

Ao comunicar um princípio, sempre utilizam (ou utilizavam, no caso dele) boas histórias de suas próprias vidas, de passageiros e também de funcionários.

O segundo: busque a macrotendência a que sua história está vinculada. Embora o apelo individual faça a história ser ouvida e lida enquanto está sendo contada, o que faz a sua história ser repetida e reproduzida é o vínculo dela com um contexto maior -seja da empresa, seja do país, seja da humanidade. Quando anunciamos que estávamos contratando engenheiros no Vale do Silício, isso virou notícia ao mostramos que havia ali uma tendência muito maior em curso: estrangeiros apostando no momento por que passa nosso país e vindo trabalhar no Brasil.

A ação de recrutamento e os nossos contratados não eram por si só merecedores de uma reportagem em veículo externo à própria empresa. Nossos engenheiros viraram os personagens principais ao contar suas histórias, mas a pauta só se tornou uma história de interesse maior por aquilo ser parte de uma grande e relevante tendência.

Seja autêntico. Não é possível contar uma história que não seja a sua. É possível enfatizar uma ou outra característica da sua história, mas não faz sentido contar histórias de pessoas, de projetos e de empresas perfeitas ou inventadas.

As histórias autênticas e imperfeitas viram excepcionais ao serem contadas exatamente como são. No conjunto dos fatos, ou mesmo com o tempo, as pessoas facilmente percebem histórias que não são autênticas e isso mina a base de toda comunicação eficaz: a confiança.

Um dos melhores comunicadores dos nossos tempos, o ex-presidente Lula, talvez seja o melhor exemplo disso. Ao se comunicar, é emotivo, por vezes impulsivo e muito simples e direto. Não construiu um estilo pseudorrebuscado e frio, conta sempre histórias diretas e simples, condizentes com sua personalidade e sua história de vida.

Pensando no contexto maior das transformações em curso no Brasil, ontem estive em um evento no qual ficou evidente a relevância de uma boa estratégia de comunicação para "startups". Digo isso por acreditar que, apesar da incipiente ascensão do tema na mídia local, há um fenômeno muito maior em curso e empreendedores que têm todos os elementos para serem objetos e protagonistas de grandes histórias empresariais.

julio.folha@yahoo.com


via Conteúdo Livre

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