terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Guest Post: Cícero, o menino viciado em publicidade

Ericsson Barbosa é redator publicitário e recém desbravador do mundo off line, atualmente na agência WebAdvisor se divide entre desenvolver campanhas publicitárias e gerar conteúdo na internêt. Nas horas vagas escreve textos bem humorados e apresenta stand-up comedy.

Já faz algum tempo que o Eric me procurou e começamos a trocar e-mails. Ele queria fazer seu TCC sobre storytelling e pediu orientação. Eu enviei alguns links de textos interessantes, trocamos umas idéias, e aí dei uma sugestão: fazer o trabalho em formato de prosa, como se cada capítulo fosse um contos.

Sinceramente nunca achei que alguém seria doido o suficiente para topar isso, mas o Ericsson foi. :)

Como uma das funções desse blog é estar aberto a esse tipo de experimentação, convidei ele a publicar o primeiro capítulo aqui. A idéia foi apresentar campanhas que fizeram sucesso no Brasil e no mundo por meio de um personagem que é viciado em propaganda. Mais para frente o TCC se tornará um livro, trazendo os vídeos das campanhas em QRCODE, e também um site, contando histórias de campanhas mais atuais. Eu achei o máximo.

Mas agora vamos ao conto...

O Vício de Cícero

Eu poderia começar contando essa história de várias maneiras. Seja falando de um problema que já me colocou em várias encrencas, falando das coisas que perdi ou da dor de cabeça que causei a todos a minha volta, mas antes que vocês entendam o meu problema é preciso saber quem são meus pais, afinal, eles me fizeram assim. Eu acho!

Minha mãe era uma comediante nata, mas desperdiçou todo o talento contando piadas entre o preparo das refeições e a lavagem das roupas. Mamãe adorava lavar roupa, só usava OMO, ela achava que usando esse produto seria igual às mulheres dos anúncios, aquelas mulheres que usavam perolas no pescoço, unhas feitas e um belo sorriso no rosto enquanto esfregava e estendia as roupas no varal.

Meu pai era um ranzinza treinado pelo exercito. Tinha sempre uma frase pronta para qualquer tipo de situação. Enquanto minha mãe torcia as roupas e estendia no varal, meu pai torcia meu pescoço tentando introduzir algum conhecimento valido em minha cabeça. Minha infância foi marcada pelas piadas de mamãe e as bordoadas do papai. Mamãe queria meu cabelo grande, papai curto igual os dos “milicos”. Por algum motivo as vontades de mamãe sempre prevaleciam: para o meu total desespero.

O que mamãe não sabia é que os meus cabelos crespos serviam de piadas para os “coleguinhas” da escola. Na primeira epidemia de piolho, adivinhem quem era o principal culpado? Era cabelo de Bombril pra cá, cabeça de microfone para lá... Um verdadeiro tormento na minha vida, mas essa história não é mais um caso bullyng onde a criança cresce e resolve criar um manifesto contra os atos.

Essa história e sobre uma manhã que marcou minha infância, eu adorava assistir televisão, principalmente os reclames do plim-plim. Enquanto as pessoas normais aproveitavam os comerciais para ir ao banheiro e fazer algumas tarefas, eu fazia o oposto, naquele momento eu fixava os olhos na TV e curtia tudo o que era criado para vender produtos ou serviços.

Naquele dia pela primeira vez estava sendo exibida uma campanha, ou melhor, uma lavagem cerebral para todas as crianças da época que dizia: “não esqueça a minha Caloi”. Eu fiquei maluco com aquilo, a campanha ensinava passo a passo como fazer com que seu pai lhe desse uma Caloi, era simples: pegar um papel, anotar “não esqueça minha Caloi” e espalhar por todos os lugares da casa. Assim me ensinaram e assim eu fiz.

Comecei tímido pregando na geladeira, na televisão, na porta do armário. De alguma maneira meu pai não notava nem dava a devida atenção. Comecei a colocar no bolso da calça, no verso do boletim da escola e acima das estrelinhas que ganhava da professora por ter feito a lição de casa. Nada! Meu pai não cedia a meus esforços.

Pensei! Vou falar com a mamãe, ela sempre convence o papai a fazer as coisas que ele não quer. Mamãe não me ajudou, mas me deu uma dica valiosa:

- Filho, quando você crescer irá entender que nós mulheres, ganhamos os homens pela boca.

Foi quando entendi o porquê da minha mãe passar tanto tempo cozinhando.

Voi lá! Meu próximo bilhete será especial, quero ver se desta vez ele esquece minha Caloi.

Acordei mais cedo para preparar o bilhetinho, desci as escadas correndo e sentei-me a mesa para tomar café. Era uma questão de tempo até minha mãe dar o famoso grito de guerra com um pote de margarina em mãos: Ok! Pessoal, pode vir que está na mesa.

Papai sentou-se, pegou o pão que minha mãe acabara de preparar com sua manteiga preferida e foi com toda vontade do mundo morder aquela “iguaria”. De repente ele cospe o pão e tira da boca um pedaço de papel, era o meu bilhete. Ele se levantou e saiu da mesa dizendo:

-Se é uma bicicleta que você quer uma bicicleta que você terá.

Fiquei orgulhoso de mim naquele momento, consegui algo do meu pai pela boca do jeito que mamãe havia me dito. Naquele momento me veio à mente o tanto de coisas que eu poderia ganhar se colocasse no pão pelas manhãs.

Fui correndo chamar meus amiguinhos para reuni-los na garagem de casa, afinal, eu seria o primeiro a ganhar uma Caloi na minha rua. Tratei de tomar um banho para me arrumar e esperar meu pai com o presente, na verdade nessa idade quem me arrumava e escolhia minhas roupas não era eu, então mamãe separou um conjuntinho jeans e passou um pente no meu Black Power.

Depois de horas de espera meu pai apontará na rua com uma caixa enorme nas costas, foram momentos de dúvida e alegria, não sabia se corria de encontro ao meu pai ou esperava ele entrar a casa. O que eu tinha certeza era que meus amigos morreriam de inveja de mim quando vissem desembrulhando aquela caixa enorme com uma Caloi novinha dentro. Quando avancei no embrulho papai mal tinha atravessado o portão, tomei pelos braços meu presente e...

Lembro-me como se fosse hoje as primeiras palavras que disse ao ver minha Caloi:

-Rosa? Buzina? Cestinha?

Desse dia em diante fiquei mais conhecido como o microfone da Xuxa. Com minhas longas madeixas e minha bicicleta rosa.

6 comentários:

  1. Muito orgulho de ter me formado com esse garoto. Quero ver esse livro sair. Parabéns, Ericsson.

    bjs

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  2. Sério que vocês se conhecem? Que mundo pequeno!

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    Respostas
    1. Estudamos na mesma sala, tive que aturar ele por alguns anos! hahahaha

      Ps: o mundo pode não ser pequeno, mas Brasília é! rs

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  3. Olha o Ericsson aqui no Caldinas!!

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