quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Uma história sobre compaixão e ponto de vista

O post abaixo foi originalmente publicado em 13 de janeiro de 2010, e seu título original era BBB10, FUTILIDADE E UTILIDADE. Foi o único post que escrevi sobre Big Brother Brasil, e também um dos mais comentados desde que entrei no Update or Die.


Resolvi republicá-lo não só porque o BBB12 estreou ontem, mas também porque é interessante reler à luz dos últimos acontecimentos. De lá para cá o união civil entre homossexuais foi aprovada, os grupos que se opõe ficaram mais radicais e, é claro, tivemos mais BBBs. Ah, o vencedor dessa edição foi o polêmico e homofóbico Marcelo Dourado.


O mais importante é que a história que eu conto abaixo ainda é bastante útil e atual...



Durante o ginásio, como todo adolescente hetero pouco esclarecido sobre a vida, protagonizei algumas situações de extremo preconceito com colegas que apresentavam tendências homossexuais (confirmadas na vida adulta). Até que, graças a um professor do cursinho, minha visão de mundo mudou completamente.

O nome eu não lembro, mas era um professor de inglês com uma baita coragem. Ele entra na aula e fala mais ou menos assim:

“Todo semestre eu entrava por essa porta e já começava aquele buxixo. Será que ele é? Sera que ele não é? Então, a partir do último ano, eu resolvi que dedicaria toda primeira aula do meu curso para falar sobre esse assunto e aí a gente coloca um ponto final nisso. A partir da segunda aula eu só vou falar de inglês, ok? Então é o seguinte, eu sou gay mesmo.”

Diante do espanto geral da classe, o professor continua contando sua história de vida. Como ele desconfiava desde cedo, suas primeiras experiências, a luta contra seu próprio preconceito, o problema de sair do armário e revelar para a família etc.

Aí ele abre para perguntas e uma menina levanta a mão. Meio sem graça ela manda: “Mas você é ativo ou passivo?”. A classe cai em gargalhada e o professor, super seguro de si, responde essa também.

Resumindo, foi uma das melhores aulas da minha vida. Não aprendi nada que fosse cair no vestibular, mas aprendi muito sobre compaixão e ponto de vista. Ter ouvido a história de vida de um gay de forma tão sincera e franca fez com que eu nunca mais tivesse preconceito com a opção sexual de ninguém.

Por isso achei de extrema importância e ousadia a seleção de participantes tão diversos nessa nova edição do Big Brother Brasil. Para quem não assistiu a estréia já adianto: há dois participantes gays, sendo que um é drag queen, além de uma lésbica e uma bissexual.

Diferente das edições anteriores, onde sempre tinha alguém supostamente homossexual, mas que nunca se assumia (exceção ao Jean Wyllys), agora a coisa é extremamente escancarada. Os próprios participantes já se assumiram logo ao entrar na casa. Depois ainda sofreram uma bateria de perguntas desconcertantes do Pedro Bial, assim como aquela menina fez no cursinho.

É claro que tudo que é polêmico e exótico vende, e a Globo sabe muito bem disso, mas quero acreditar que o BBB10, apesar dos pesares, está fazendo um serviço ao país, assim como aquele professor fez para a minha vida. A partir do momento que milhões acompanham as histórias de vida de pessoas tão diversas, no fundo há ali um exercício midiático de compaixão.

Logo no início de 2010 fomos surpreendidos com a notícia de que Portugal aprovou o casamento gay, algo que a sociedade brasileira parece ainda não estar preparada para aceitar. Quem sabe o BBB, esse programa que todo mundo adora criticar (mas que todo mundo assiste e comenta), não dá um belo update no Brasil?

Um comentário:

  1. O bacana do BBB é que inevitavelmente a gente vê a vida das pessoas de perto (independente de edição tendenciosa), e quando gostamos de alguém por conhecer, ainda que pela tela da TV, isso vai obviamente além da opção sexual. É uma grande oportunidade do tiozinho que acha que gay é uma ameaça perceber que "oooh, eles comem a mesma comida que a gente! Ooooh, eles tomam banho e não passam o dia inteiro transando com pessoas do mesmo sexo!". Parece óbvio, mas o principal problema do preconceito é a dificuldade de entendermos que as pessoas no dia-a-dia não são diferentes da gente - inclusive, perdi muito preconceito com piriguetes vendo BBB, de forma que o programa pode ser sim um serviço de compaixão, ainda que sem querer :-)

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