
Questões sócio-políticas à parte, por que, em pleno 2011, ainda ficamos tão encantados com casamentos reais? O que isso simboliza? Qual o significado dessas histórias (reais ou não) em nossas vidas?
O Hélio Schwartsman (melhor colunista da Folha de São Paulo) escreveu um artigo bem interessante sobre isso, do ponto de vista da psicologia humana. Em resumo ele diz que, conforme a sociedade humana foi se expandindo, em algum momento se fez necessária a figura de um governante, alguém que pusesse ordem na casa. Daí provavelmente surge a figura do rei.
Mas o rei não é só como um líder moderno, alguém que foi levado até o poder por (EM TESE) ser acima da média e ter a possibilidade de promover o bem comum. O rei é mais especial que isso. O rei foi escolhido por Deus para sentar no trono. O rei, e toda sua família, possuem um sangue diferente do nosso. Em outras palavras, eles são superiores tanto espiritual quanto fisicamente, e isso justifica tudo.
Isso te lembrou alguma coisa? O arquétipo do herói sempre esteve presente em mitos criados pelas sociedades humanas e sua função social é servir como um norte, um farol, um guia para nossas ações. Em um momento de dificuldade as pessoas logo pensam "o que (insira o seu herói preferido aqui) faria?".
Reis, e suas famílias reais, foram muito competentes em se apropriar desse arquétipo ao longo do tempo. Prova disso é que em 2011, com pouquíssimas monarquias no mundo, parte delas meramente figurativa, nosso imaginário continua sendo povoado por suas histórias. Aliás, ouso dizer que a monarquia inglesa só continua onde está por causa delas.
Mesmo sem nenhum poder há algum tempo, gastando dinheiro do contribuinte e com provas científicas de que o sangue deles é igual ao do resto da população, ainda assim os ingleses parecem muito confortáveis com a idéia de mantê-los lá. "Sabe essas histórias sobre reis que você sempre ouviu? Aqui na Inglaterra nós temos um de verdade, morra de inveja".
Alie a isso outra estrutura narrativa que povoa o imaginário humano há tempos: o príncipe e a plebéia. O conto moral da ascensão social pelo amor, ou mais especificamente, pelo casamento. Nesse conto um personagem desfavorecido pela vida dá a volta por cima ao ter seu valor reconhecido por alguém superior, que acaba tornando-o um igual.
Não que Kate seja uma desfavorecida, longe disso, mas pelo que captei por aí sua família não tem título de nobreza. É uma boa história para a coroa inglesa, que sinaliza para o mundo algo do tipo "qualquer um pode se tornar um de nós, mas nos colocando em pé de igualdade provamos que somos nobres". Diga-se de passagem, é uma história levada muito a sério por algumas plebéias. E a Disney sacou isso faz tempo...
(*) Esse post faz parte de um experimento. Escrevi 3 posts sobre o mesmo assunto, mas com pontos de vista diferentes. Simultâneos, e cada um publicado em um blog diferente. Os outros posts foram linkados ao longo desse texto, procure. ;-)

