sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meu primeiro contato com a AIDS


Queria ter feito esse post ontem, 1º de dezembro, que foi o Dia Mundial de Luta contra a AIDS. Infelizmente não deu tempo, mas como dizem que o que vale é a intenção, vamos lá...

A história que eu vou contar é real. Juro, sem nenhuma virgula de ficção, embora, como se passou há mais de 20 anos, é capaz que minha memória tenha distorcido alguma coisa. De qualquer forma é exatamente assim que eu lembro, e segundo meu psicanalista é isso que mais importa.

Era da metade para a frente da década de 80 e eu devia ter alguma coisa entre 6 e 10 anos, não mais do que isso. Estava no final do pré ou no começo do primário (atualmente ensino fundamental) e a AIDS começava a ficar mais conhecida e "popular" fora dos chamados grupos de risco (gays e viciados).

Foi então que minha mãe me chamou para uma conversa séria na sala. Conversas na sala eram sempre mais sérias do que as que aconteciam no quarto ou na cozinha. E aí ela começou a me contar sobre uma nova doença que havia surgido e que era fatal, e na época era mesmo. AIDS era diferente de gripe ou de catapora. Não tinha remédio, não tinha nada. Pegou, morreu.

O alerta estava dado. Para uma criança com imaginação fértil, como eu sempre fui, esse tipo de notícia gerava pânico. Mas aí minha mãe me acalmou e explicou que não se pegava essa tal de AIDS de qualquer jeito. Não pelo ar, muito menos pela comida. E aí veio o conselho:

"Filho, escuta bem o que eu vou te dizer. Não deixe ninguém encostar no seu bumbum tá? Se encostarem no seu bumbum você pode pegar AIDS. Me ouviu bem?". Obviamente que não fazia muito sentido, naquela época, minha mãe falar de drogas, seringas ou preservativos (nem sei se tinha). E longe de minha mãe ser homofóbica, nunca foi. Acho que ela só queria me livrar de pedófilos mesmo. Pior, pedófilos aidéticos né?

Ah, na época falar "aidético" não era politicamente incorreto ok?

Ufa! Então tá, era só não deixar encostarem na minha bunda. Se livrar da AIDS era mais fácil do que eu imaginava.

No dia seguinte fui para a escola, despreocupado com aquela conversa. Tudo corria bem até a professora pedir para que os alunos fizessem uma fila em frente a sua mesa. Era o momento de dar visto na lição de casa. E vocês sabem como funciona criança nessa idade né? Não sei bem o que aconteceu, mas acho que o coleguinha atrás de mim foi empurrado e, adivinhem, ENCOSTOU NA MINHA BUNDA.

Tudo bem que ambos estávamos de uniforme, mas minha mãe não havia especificado que deveria ser pele com pele ou, pior ainda...vocês já entenderam. Pra mim, daquele jeito, já estava valendo.

FUDEU, PEGUEI AIDS - pensei.

Naquele exato momento comecei a suar de desespero e só conseguia pensar sobre quanto tempo me restava. Um dia? Um mês? Um ano? Como seria essa morte? Lenta e dolorosa? Rápida e tranquila? Minha pele começaria a derreter? Como meus pais reagiriam? Aliás, como é que eu ia contar isso para eles?

Preso nesse looping de pensamentos não consegui prestar atenção em mais nada naquele dia, e eventualmente voltei pra casa. Minha mãe me buscava no colégio de carro, mas eu esperei até chegarmos na sala. E aí comecei a chorar.

"Manhê, tenho uma coisa para te contar. Hoje na escola encostaram na minha bunda!" buááááááááá

É claro que ela me acalmou e explicou que não funcionava bem assim. Era um tipo diferente de encostar na bunda. Não lembro como ela explicou isso, mas sei que eu entendi e fiquei mais tranquilo. :-)

Enfim, curiosamente nunca conheci ninguém próximo que tivesse AIDS, ou que tenha revelado isso, mas essa experiência de ver a morte na minha frente logo na primeira década de vida já foi o suficiente para me deixar bem esperto em relação a isso.

No melhor espírito "utilidade pública" deixo aqui o site do governo brasileiro sobre a doença. É bastante completo.

9 comentários:

  1. Hahaha "encostaram na minha bunda". A gente ainda pode evoluir muito na questão de educar as crianças, né?

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  2. Fudeu tá com AIDS kkkkkkkk
    pior q criança é um barato mesmo

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  3. hehehehe gente, toda vez que eu lembro disso não consigo não rir. :)

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  4. Sabe o que acho mais legal nessa história? É que ela contada serve perfeitamente como ensinamento para evitar que o caso ocorra com uma outra criança! haha

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  5. Cara adorei a historia vou ensinar isso pra meus filhos é uma forma de pervenir situaçoes complicadas

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