sábado, 7 de maio de 2011

Guest Post: "COMO EU COMPREENDI O MEDO NUCLEAR NA CULTURA POP JAPONESA"


Já faz praticamente dois meses que aconteceu o fatídico terremoto no Japão e os subsequentes desastres nucleares. Na época discutia com o meu amigo Arthur a relação disso com a curiosa (para não dizer estranha) cultura pop daquele país e o convidei para escrever sobre isso aqui no Caldinas.

Ele até que foi rápido, eu que acabei enrolando demais para fazer o post. Quem sabe, algum tempo depois, o distanciamento do choque inicial até melhore a leitura do texto. Vale a pena.

Por Artur Chagas, Psicólogo, Professor e Pesquisador da gamecultura e das sociabilidades digitais.
twitter: @Artur_Chagas

Devo confessar que catástrofes naturais não me sensibilizam muito, seja o tsunami na Indonésia, em 2004, ou o recente terremoto no Japão. Me comove mais a queda de um tirano, marca da força de uma ou mais nações articuladas, não da força da natureza. Já o perigo de contaminação nuclear é diferente, tem cheiro de desastre natural, mas também de investimentos políticos temerários.

Ao assistir na última semana, imagens da população correndo para longe da central nuclear, no Japão, imediatamente me lembrei de antigas séries de tevê, como Spectreman, Changeman, além de filmes como Godzilla e o clássico da minha pré adolescência, Akira (o mangá e o anime, não o cineasta). Em comum, todos traziam usinas nucleares em seus cenários, muitas vezes na iminência da destruição por monstros inexplicáveis. Também tinham em comum a constante presença de cientistas que, sem grandes exceções, ou eram especialistas em biogenética, ou em fontes de energia.

Comecei a lembrar de cenas bem gravadas na minha memória, de japoneses correndo aos montes quando um monstro provocava tremores de terra, ou quando robôs gigantes colidiam com laboratórios científicos. Eu não compreendia bem o significado daquilo, a repetição de certos medos ou potenciais catástrofes, por mais improváveis que parecessem. O que seria isso? Tentativa de criar uma ficção pop sobre a paranóia nuclear, para o mercado norte americano? Sempre me pareceu muito distante da galhofa norte americana, representada por bandas de rock como o Nuclear Assault, ou personagens como o Toxic Avenger.

Eu estranhava que uma nação sem envolvimento declarado com a Guerra Fria expressasse, em sua cultura pop, tantas facetas do medo de desastres nucleares. Eu desconhecia, até agora, a relação direta entre tais desastres e tremores de terra. Todos nós crescemos ouvindo histórias das construções anti terremoto, com amortecedores em baixo do solo. Mas até a minha geração, ao menos, poucos de nós escutaram atentamente às histórias contadas pela cultura pop nipônica, que insinuavam medos velados; tremores de terra causados por forças superiores e inatingíveis (como monstros dezenas de vezes maiores que qualquer construção) que assustavam cientistas e punham a população em desespero.

Não é novidade que os desenhos rupestres preservem ensinamentos transmitidos às primeiras gerações de nossos antepassados, e que o ato de contar histórias mobilize em nós, catarses, elaboração de lutos, elevação da auto estima, alusões a situações de superação ou de dificuldades grupais, etc, etc, etc. Capitalizada nas formas de bem de consumo e bem de serviço, a abertura criativa que origina sempre novos simbolismos e narrativas em cada cultura, hoje orienta nossas escolhas éticas, políticas e também de consumo. Em todos os casos, joga-se sempre com os medos, desejos e ambições que permeiam grupos sociais os mais diversos.

Para além do terremoto e do perigo nuclear, uma grande tragédia para o povo japonês neste momento é a presentificação daquilo que jazia nas sombras. Poder elaborar um impasse, ou um medo, de forma criativa, pela expressão artística, pode ter ajudado muita gente a se preparar para este momento, em que tudo de mais aterrorizante emerge das profundezas a largas passadas, tal qual o Godzilla. Agora, mais uma vez, eles encontrarão na disciplina e no senso de compromisso, as bases para mais um período de reconstrução, mas desta vez, tendo custado tudo o que está custando, creio que compreenderemos melhor a alma de nossos semelhantes.

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