terça-feira, 15 de março de 2011

Nova mitologia será interativa e transmídia

Em ritmo de preparação para o curso que vou ministrar na ESPM-SP, comecei a reassistir O Poder do Mito, série de entrevistas com Joseph Campbell, essencial para entender a relação entre histórias, sociedade, comportamento e um monte de outras coisas.

As entrevistas se passam em 1988 e em um determinado momento Campbell comenta que a sociedade estava mudando rápido demais e que novas mitologias deveriam surgir para englobar a complicada relação entre o homem e a máquina.

Ele se referia mais especificamente aos computadores, que começavam a se popularizar graças à IBM, e potencializavam aquela contradição básica entre o Homem utilizar uma ferramenta para melhorar a realidade e acabar ficando escravo dela.


Se antigamente os mitos eram criados em volta das fogueiras, já faz algum tempo que (minha tese) isso acontece por meio do cinema. Nesse sentido tivemos, nos últimos 20 anos, pelo menos duas histórias com fortes aspectos mitológicos que tratam exatamente disso: Exterminador do Futuro e Matrix.

Enquanto escrevia ontem sobre a relação entre histórias, iPad e novas tecnologias, fiquei pensando o que Campbell falaria se estivesse vivo hoje, dando aquela mesma entrevista. Longe de termos superado essa relação esquizofrênica com as coisas que criamos, mas o fato é que, com internet e afins, há novos desafios colocados para a sociedade.

O exercício de prever novos mitos é puro achismo, mas não deixa de ser divertido. Como é que iremos vivenciar as histórias mitológicas no futuro? E, mais importante, do que elas tratarão? Tenho algumas palpites:

- Se hoje o cinema substituiu a fogueira, amanhã o videogame pode substituir o cinema. Mas se, em um certo sentido, todo mundo vê o mesmo filme, como ficaria no caso de jogos abertos, onde boa parte da jornada é decidida pelo jogador? Que tipo de mito fragmentado seria esse? Já que a aventura é diferente para cada um, uma hipótese é que o principal arco da história (aquele que entra para a cultura) esteja no espaço psicológico dos personagens (mais "estático", pelo menos pensando com a tecnologia de hoje).

- Mais do que o Homem versus a máquina, uma questão que eu imagino bastante importante daqui para frente é o entendimento de que somos uma sociedade global, e não mais separada em tribos que não conhecem o resto do mundo. Campbell até toca nesse assunto, mas em 88 ele dificilmente imaginava o impacto da internet e das redes sociais. Lembram da história bíblica (e mitológica) da Torre de Babel? Então, acho que isso volta a ser especialmente importante.


- Existem muitos elementos mitológicos em Matrix, e se a trilogia tivesse sido fechada de uma forma mais convincente o impacto cultural teria sido mais profundo do que já foi. Coincidência ou não, a saga Matrix também é apontado por muitos como uma das primeiras experiências transmidiáticas, criada com o propósito de ser assim. Então, como seria vivenciar esses mitos por meio das várias mídias? Impossível não pensar na Canção Nova, movimento católico que tem como um dos principais objetivos utilizar os meios de comunicação de massa para fins religiosos. Só que a história de Jesus é originalmente linear. Como seria se uma nova Bíblia fosse escrita obedecendo uma lógica transmídia?

2 comentários:

  1. Puxa adorei seu artigo ! Tocou em uma questão profunda de uma maneira especialmente atual.
    Agora fico imaginando se já não estamos realmente criando uma nova mitologia em nossa era?
    Com o papel dos filmes que eram muito própios para a passagem da cultura em volta da fogueira, e agora os games não seriam através de sua experiência pessoal,nossa próxima liturgia de encontro a esses mitos?

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    1. Não acho que os games vão substituir completamente o cinema, mas imagino que haverá uma crescente relação de complementariedade. Você assiste o filme, e joga o game, e cria fan fiction, e por aí vai.

      Obrigado pelo comentário. :)

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