segunda-feira, 14 de março de 2011

iPad, novas tecnologias e storytelling

A escrita surgiu na humanidade há alguma coisa entre 3 e 5 mil anos, dependendo da interpretação sobre as evidências científicas encontradas até hoje. Obviamente não estava lá para ver, e nem conheço ninguém que estivesse, mas aposto uma mão que, assim como hoje, vários profetas criticaram a nova "tecnologia". Imagino alguém fazendo o seguinte discurso:

É um absurdo o que estão fazendo com a nossa tradição oral, decodificando e registrando tudo nesses rabiscos que chamam de letras!
Com essa tal de escrita não vai demorar muito para que as pessoas parem de usar a boa e velha conversa.
Escrevam aí, vamos esquecer como se fala e seremos um tribo de mudos!
E não preciso nem dizer que essa tecnologia do alfabeto é cara e elitista né? Só os mais abastados podem pagar por um bom professor hoje em dia.

Do outro lado do espectro também deve ter existido a figura do entusiasta sem limites, do tipo que acredita piamente que qualquer nova tecnologia seja a salvação da humanidade. Tente pensar nessa figura como um geek das cavernas:

A fantástica escrita abre possibilidades incalculáveis para a nossa tribo. Agora poderemos registrar praticamente tudo, sem ter que depender da deficiente memória humana e, vejam bem, não precisaremos mais lidar com emoções incômodas.
Tanto na hora de responder para o seu vizinho que reclama do barulho na caverna, quanto naquele constrangedor momento de chegar junto da menina, basta escrever na tábua de pedra e mostrar. E a pessoa poderá fazer o mesmo para responder.
Está decretado o fim da língua oral. Afinal, falar é coisa do passado.

A inspiração para essa brincadeira veio da tirinha abaixo, enviada pela @marianarrpp, que conta a história de uma menina apaixonada por livros que, de repente, ganha um iPad do pai. Humor à parte, o trecho mais importante para essa discussão está ali no final, quando o pai vê a menina lendo um e-book de forma "estática" e, inconformado, mostra todas as traquitanas interativas.

Relutante, a menina argumento que os elementos da história se movem melhor em sua imaginação, e não chacoalhando o aparelho para que algo aconteça. Ela quer literatura, e não um produto de marketing.

O deslumbramento e o medo causado pelo que é novo e inexplorado é uma dessas histórias contadas milhares de vezes, em todos os cenários possíveis, e essa tirinha é só mais um capítulo de como essa questão é complexa para o ser humano.

Ao mesmo tempo em que os tablets abrem uma infinidade de possibilidades para que contemos histórias mais interativas, isso não significa automaticamente que serão histórias mais interessantes, e aí está o cerne da questão.

Se hoje as interatividades parecem mais jogadas de marketing do que algo que vá contribuir de verdade para a narrativa, o motivo é que essas histórias foram concebidas para serem imaginadas e, acima de tudo, entendidas de uma forma linear.

É preciso muita experimentação até que as potencialidades de uma nova tecnologia deixem de ser oba oba e passem a contribuir de verdade para uma narrativa, e isso acontece por meio de obras que já nasceram nesse meio ou então após uma certa prática para fazer adaptações (que quase sempre não devem ser literais).

Enfim, o ponto é que uma obra-prima para iPad (ou qualquer tablet) ainda está longe de aparecer, mas também está longe de ser impossível. O negócio é ir tentando...



fonte

PS: prometo escrever mais sobre o assunto, em breve

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