terça-feira, 1 de março de 2011

In Memoriam

Sinceramente não tenho muita certeza de onde vieram a maior parte dos interesses que me acompanham desde criança, mas de um eu lembro bem. Quase como se fosse hoje.

A primeira vez que fui ao cinema, junto dos meus pais, foi para ver Mestres do Universo, que em tese deveria ser o "filme do He-Man". Eu tinha 7 anos e, como toda criança da época, era vidrado na animação. Tenho pouquíssimas memórias do filme, a não ser de sair meio frustrado. O He-Man que eu via na TV não era muito parecido com aquele do filme. Talvez fosse a limitação da idade, mas hoje sei que a crítica considera o filme uma bomba mesmo.

Meu gosto por cinema podia ter acabado ali. É engraçado pensar que hoje eu seria uma daquelas pessoas que vão ao cinema muito de vez em quando, só quando a namorada insiste ou quando estréia aquele filme que todos estão vendo, e se você ficar para trás não terá assunto pelos próximos 15 dias. Nada contra, é só um estilo de vida, mas não é o meu.

Felizmente não foi isso que aconteceu. Alguns meses depois estava em um cinema de rua, do centro de São Paulo, entrando só com o meu pai para assistir Império do Sol, uma experiêcia que marcaria minha vida pra sempre.

Primeiro, não sei o que ele estava pensando quando resolveu levar o filho de no máximo 8 anos recém feitos para assistir um filme desses, tão denso e complexo. Talvez por ser um filme de Steven Spielberg ele tenha imaginado que fosse o contrário. Sorte minha.

Desculpem os spoilers, mas o filme já tem mais de 20 anos. Se você não viu, corra já para a locadora ou torrent mais próximo.


Ali tomei meu primeiro susto, quando Jim, o personagem principal interpretado por Christian Bale ainda criança, está deitado em seu quarto e ouve as primeiras bombas japonesas caindo sobre Xangai, em plena Segunda Guerra. O mundo que conhecíamos podia mudar num piscar de olhos.

Depois veio o impacto de ver o mesmo Jim sendo separado dos pais na confusão, e tendo que se virar sozinho na cidade, consumindo tudo que restava em sua ex-casa até ter que sair nas ruas em busca de comida. Sobrevivência pura.

Eventualmente ele acaba indo parar em um campo de concentração onde japoneses aprisionavam as famílias inglesas e, longe do pais, acaba adotando novas referências paternas e vivendo a adolescência dentro daquela realidade. Mesmo nas condições mais adversas algumas coisas não mudam nunca.

Mas a cena que, de longe, mais me impressionou, foi a coincidência entre Jim vendo um amigo morrer e a bomba de Hiroshima explodindo no horizonte. Para ele aquilo era a alma que ascendia ao céu. Como o personagem, eu também não sabia direito o que era, e até captar a legenda do meu pai "filho, essa é a bomba atômica" embarquei na poesia.

Enfim, naquela idade isso não foi um filme, mas uma experiência. Obviamente não entendi muita coisa e voltei a assistí-lo pelo menos uma dúzia de vezes ao longo da vida. Mas ali, na sala escura e de olhos bem arregalados, tive contato pelo primeira vez com conceitos até então obscuros para uma criança paulistana de classe média alta, tratada a leite com pêra.

Só lembro de chegar em casa meio em choque, e o meu pai rindo bastante com o susto que tinha levado naquela primeira cena do bombardeio. É uma das memórias mais gostosas e vivas que tenho dele, que faleceu ano passado depois de enfrentar uma doença terrível.

Ele provavelmente não tinha noção (nem intenção) do significado daquela experiência, mas mesmo assim sou eternamente agradecido pela coragem que teve de não me tirar da sala ao primeiro sinal de fumaça, como um pai banana que esconde a realidade do filho.


Foi assim até o final, eu e meu pai assistindo todos os tipos de filmes juntos, passando por cima de qualquer censura (isso quando eu era menor de idade, e não aplicado aos pornôs) ou tabu. O último deve ter sido Dança com Lobos, com a doença já bastante avançada.

Paradoxalmente aos poucos fui descobrindo que ele vivia me protegendo das duras verdades da vida real. Sempre que havia uma notícia ruim ele dava uma maquiada na coisa, e para mim sempre chegava algo bem mais leve e suportável. Acho que ele preferia me ensinar sobre a vida por meio da ficção.

E agora estou aqui, seguindo seu legado do meu jeito. :-)

Pai, te amo.

4 comentários:

  1. Que legal, Bruno,
    Reconhecer o valor dos relacionamentos na forma da gratidão é importante e valioso para você e seu pai (aonde quer que ele esteja) e para todos os que lerem a mensagem.
    Que um dia você possa ter essa maravilhosa oportunidade - ser pai -, caso queira, é claro.

    Grande abraço
    Lucas Selbach
    www.porfazer.com.br

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  2. Brunão, não cheguei a conhecer seu pai, mas você foi criado por um grande cara, ou não seria o grande cara que é hoje!
    Abraço

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  3. Seu pai foi um cara muito especial e aposto que devia se orgulhar bastante de você. É uma vitória e tanto criar bem um filho, com a sensibilidade, o carater e a garra que você tem xará. Seu pai está sempre contigo.

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