quinta-feira, 31 de março de 2011

O poder destrutivo das histórias

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie começou a ler desde muito cedo, segundo ela desde os 4 anos. Como lia principalmente histórias americanas e inglesas, quando se tornou escritora seus personagens eram loiros de olhos azuis e brincavam na neve, ou seja, muito distantes da realidade de seu país.

Mais tarde ela veio estudar no Estados Unidos e foi discriminada pois colegas e professores não enxergavam a "verdadeira África" em suas histórias. Para falar a verdade ela mesma não sabia direito o que seria essa África idealizada, já que era de uma família de classe média e, portanto, não viveu a fome, a guerra, a miséria e todas essas coisas que costumamos pensar sobre esse continente.

Sim, é fato que elas existem, mas um continente inteiro, ou mesmo um país, nunca é feito de só uma história. Mas, mesmo assim, essa era a única história africana que as pessoas ao seu redor conheciam. Pior do que isso, era a única história que estavam preparados para ouvir. Quando Chimamanda resolveu escrever sobre sua própria realidade, a de uma família nigeriana relativamente abastada, foi um choque.

Estou sempre aqui falando sobre o poder das histórias, sobre como elas são uma ferramenta para entreter e compartilhar conhecimento etc. Mas sempre há o outro lado da moeda. Nesse caso, é o poder destrutivo das histórias. Invista alguns minutos da sua vida assistindo a palestra da escritora para o TED, logo abaixo...









quarta-feira, 30 de março de 2011

Escritores de videogames

Essa apresentação muito bem humorada diz tudo o que você precisa saber sobre histórias em videogames.






E se você acha que os enredos de jogos ainda se resumem a navinhas que saem pelo espaço atirando em tudo que se vê pela frente, não perca essa entrevista que o cineasta Guillermo del Toro deu para a Wired. Para ele nos próximos 10 anos surgirá um Cidadão Kane dos videogames.

terça-feira, 29 de março de 2011

Boas histórias não precisam de grandes orçamentos

A Casa Muda, cujo trailer você assiste aí embaixo, é um filme uruguaio que custou 6 mil dólares e é um dos destaques do Festival de Sundance desse ano.



Não bastando ser de um país sem grande tradição cinematográfica, é o primeiro filme de terror feito em plano sequência, ou seja, ligaram a câmera e filmaram de ponta a ponta, sem cortes.

Ainda não assisti, mas só por essa combinação singular de características acho que já vale a pena.

Sou fã de qualquer iniciativa que, sem muitos recursos, consiga materializar uma boa história.

Agora imaginem só se esse filme tivesse sido bancado por uma empresa, contendo um product placement que fosse essencial para a história (chamo isso de story placement). Com um orçamento bem menor que uma propaganda sua marca já estaria em Sundance, e nesse blog, e talvez em outros.

Se essa idéia te interessou, entre em contato comigo: brunoscarto@caldinas.com.br

Homer é um mito moderno


Mais uma do bem humorado GraphJam.com. Para quem não entendeu, em inglês Homer é tanto o personagem do Simpsons que todo mundo conhece quanto Homero, poeta grego que nos presentiou com os clássicos Ilíada e Odisséia.

A brincadeira reflete, dentre outras coisas, a percepção de que as histórias contadas na TV e no cinema (e na internet? e nos videogames?) formam um tipo de mitologia moderna. São essas as histórias que todos conhecem e as quais sempre nos referimos. Para o bem e para o mal.

D´oh.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Anakin Moonwalker - as semelhanças entre Star Wars e Michael Jackson

A piada é antiga, mas é boa. Trata-se da comparação entre Anakin Skywalker e Michael Jackson. Duas sagas que, cada qual ao seu modo, emocionaram milhões de pessoas. Ainda que a primeira seja ficcional e a segunda seja real, ambas as histórias são parecidas. Não é à toa que até hoje o mundo fale sobre a misteriosa morte do Rei do Pop, e também que esse episódio só tenha alimentado o mito.

Adoramos e consumimos esse tipo de história por dois motivos:
1) nos convencer que ainda dá para nos descobrirmos (ou sermos descobertos) como alguém especial
2) nos convencer que por mais que façamos escolhas erradas, sempre dá para voltar atrás e ser amado.



A sacada veio do The Movie Blog

sexta-feira, 25 de março de 2011

Monetização da imaginação

Até onde estou sabendo o ser humano é o único animal capaz de imaginar. Bom, as vezes tenho impressão que o Toby, cachorro dos meus pais, sonha enquanto dorme. Talvez sonhe com um osso dourado e gigante, mas o que importa é que ele muito provavelmente não tem consciência disso. O máximo que pode acontecer é ele acordar com fome.

Já os seres humanos sabem que imaginam, e mais, transformam essa imaginação em histórias, e as histórias por sua vez são utilizadas para fins bem reais, como transmitir conhecimento, influenciar pessoas e ganhar dinheiro.

Se há alguém que tenha descoberto a fórmula de como transformar imaginação em dinheiro, são os americanos, mais especificamente a indústria de Hollywood, e mais recentemente a indústria dos videogames. Essa fórmula vem sendo lapidada há mais de 100 anos, desde que o cinema foi inventado.

Não dá para negar o papel dos efeitos especiais nessa trajetória. Se antes todo mundo imaginava como Moisés teria aberto o Mar Vermelho na famosa passagem bíblica, a partir do momento em que isso foi filmado a relação entre a história e o consumidor da história foi modificada para sempre.

Uma das coisas que o cinema vende é justamente o conforto de entregar cenas imaginativas pré-concebidas por um artista, e o efeito que isso provoca é unificar essa imaginação na mente das pessoas. Nesse aspecto o cinema foi essencial para a globalização da imaginação.

Se isso é bom ou ruim eu não sei, e nem é hora de entrar nessa polêmica. Mas que é emocionante assistir o vídeo abaixo, com diversos efeitos especiais clássicos que emocionaram platéias do mundo todo nos últimos 100 anos, ah, isso é!







O escândalo David Letterman e o chantagista-escritor

Alguém se lembra do episódio em que David Letterman (o "Jô Soares" americano, sem gordura e pretensão em excesso) sofreu chantagem e, em uma jogada polêmica e inesperada, resolveu revelar em cadeia nacional, no seu próprio programa, o argumento do chantagista? Aconteceu no final de 2009. Se ainda não viu o vídeo da confissão, aqui está uma nova oportunidade:



Antes mesmo da confissão pública parece que um suspeito já havia sido indentificado e até preso. Mesmo assim, a estratégia de Letterman era justamente se livrar de novos engraçadinhos que pudessem atormentá-lo e, ao mesmo tempo, proteger outras possíveis vítimas, já que o ameaçavam de revelar seus casos extra-conjugais com mulheres que trabalharam no seu programa.

Detalhes à parte, o que importa para esse post é o fato de que o chantagista prometia revelar todos os detalhes sórdidos por meio de uma peça de teatro! Não uma carta aos jornais, não uma biografia não autorizada, mas uma peça, ou seja, uma história.

Se ele usasse uma dessas táticas convencionais é claro que o apresentador sairia com a imagem bastante chamuscada, mas o fato é que teria um alcance limitado. Depois de um ou dois meses todo mundo estaria focado no próximo escândalo nacional e bola pra frente.

Fazer uma peça significa não só embalar a mensagem em uma narrativa, o que torna tudo muito mais atrativo, como também ter a garantia, desde que a peça saia do papel, de que a mensagem fique no ar por muito mais tempo. Sem contar a possibilidade do roteiro ser adaptado para o cinema, o que aumenta exponencialmente o fator "merda no ventilador", e os trocados que o autor pode ganhar com tudo isso.

Então agora você já sabe. Se for chantagear alguém, prometa transformar os fatos reais em uma história bem contada. ;-)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Talkshow sobre Storytelling e Comunicação

Na última quinta-feira tive a honra de participar do #talkshow, podcast ao vivo da Talk que já teve a presença de figuras ilustres como Juliano Spyer, Maurício Saldanha e Augusto de Franco.

O tema do programa foi Storytelling e Comunicação e, apesar da pouca intimidade com o microfone (falar não enxergando a platéia foi uma experiência nova pra mim), acho que o resultado final foi bom.

Se você perdeu e quiser escutar, é só dar play aí embaixo.



Video streaming by Ustream

quarta-feira, 23 de março de 2011

Ativismo Transmídia

Post originalmente publicado no Update or Die.

Um grupo de ativistas palestinos se fantasiou de Na´vi (aqueles seres azuis de Avatar) para fazer uma analogia com sua situação e protestar contra Israel.

A montagem do clipe é meio tosca, mas bastante divertida. Está aí um exemplo de como pegar carona em determinadas narrativas com o intuito de emplacar uma causa.

No post de onde tirei esse vídeo tem um artigo bem legal sobre ativismo transmídia, com outros exemplos e até uma aula de Henry Jenkins, o papa do assunto, falando sobre isso.

Um recado para marcas que criam personagens

Faz tempo que recebi de alguém esse link, com várias fotos de personagens da cultura pop feitos de Lego. Na foto abaixo você vê o Wolverine, mas clicando tem muito mais, de Pulp Fiction à Star Wars. Um deleite nerd. Um deleite para quem brincou de Lego na infância. Um deleite para quem aprecia arte. Mas também uma baita metáfora...



Cada pecinha de Lego que você vê aí em baixo não significa nada isoladamente. Juntas ela formam um personagem, nesse caso o Wolverine, um super-herói mau humorado, violento, misterioso, quase invencível etc. Todos esses conceitos e significados não estão nas peças, juntas ou separadas, nem na tinta usada para imprimir a revista em quadrinhos, onde o personagem nasceu.

Tudo isso está na sua cabeça, na minha cabeça e em quem mais algum dia já teve contato com a história do Wolverine. Sim, porque um personagem não tem determinadas características por si só. Para ser violento é preciso bater em alguém. Para ser misterioso é preciso guardar um segredo. Para ser super-herói o universo tem que estar cheio de pessoas comuns.

Onde quero chegar é que ninguém alcança o patamar de ícone sem uma grande história por trás, como é o caso de quase todos os personagens dessa coleção. É uma grande lição para publicitários que criam personagens completamente estáticos e esperam, em vão, que o público se envolva.

Desculpa aí, mas sem contexto esses personagens significam nada.

terça-feira, 22 de março de 2011

Game Over - quando uma história chega ao fim

Nem todo videogame conta uma história. Tetris, por exemplo, é puro entretenimento. Por outro lado, há aqueles que são capazes de engajar o jogador de uma forma tão profunda que arranca até lágrimas. Esse é o caso de Final Fantasy VII, para Playstation, jogo que fez muito marmanjo chorar ao ver uma cena, na metade da história, onde uma das personagens principais é assassinada pelo vilão. É um acontecimento totalmente inesperado, acompanhado por uma música triste e dramática. Um momento inesquecível para qualquer um que tenha jogado esse videogame.

Final Fantasy VII deve ter lá seus 10 anos de vida, mas é considerado um jogo moderno em termos de narrativa. Na verdade é um verdadeiro divisor de águas. Antigamente as narrativas dos jogos eram mais simples. As histórias consistiam em um sequestro de uma princesa ou namorada, e lá ia o herói para uma aventura de resgate. Bem machista, mas eficiente. Outra variante era a do vilão tentando dominar o mundo, e o herói fazendo de tudo para impedí-lo.

Muitas vezes o jogador investe horas e horas no jogo, descobrindo cada segredo, explorando um-a-um os cenários, vencendo níveis de dificuldade que beiram o impossível, se doando à história, e aí, no final, tem uma ingrata surpresa.

É a mesma sensação de quando você está assistindo um bom filme, daqueles que prendem sua atenção, e aí, no final, vem aquele balde de água fria. "Pô, mas termina assim? Que ridículo, perdi duas horas da minha vida nisso". Muita gente sentiu isso no terceiro filme da trilogia Matrix.

Esses casos provam que não adianta nada construir um plotline cativante e não manter o nível até a conclusão da história. As pessoas tendem a achar que se você já segurou a atenção da pessoa por algumas horas, o final é um mero detalhe. Mas não, o final é o que fará a pessoa avaliar se o tempo ali investido valeu a pena, e se a história será viralizada.

Para ilustrar o assunto, seguem três clipes com os piores finais de videogame de todos os tempos. Muita gente deve ter jogado os joysticks na parede...












Storytelling e Transmídia: afinal, o que é e para que serve?

Post originalmente publicado no Update or Die.

Depois de alguns anos trabalhando com publicidade, e sempre ansioso pela próxima tendência que iria revolucionar tudo, comecei a perceber que, uma a uma, todas elas iam ficando pelo caminho. Isso e minha paixão por cinema me levaram a parar de correr atrás do próprio rabo e estudar melhor a essência da comunicação humana.

Há pelo menos quatro anos venho pesquisando bastante sobre como a arte de contar histórias pode ser aplicada para vender produtos, serviços e idéias, aproximando as pessoas das empresas. Em 2008 co-fundei o primeiro escritório brasileiro especializado em criar histórias ficcionais para empresas (os cases continuam no ar) e isso acabou gerando conhecimento prático e outros projetos legais, como o curso que fui convidado para dar na ESPM-SP, que começa daqui 20 dias: Inovação em Storytelling - do branded content à transmídia (inscrições aqui).

De uns tempos para cá muitas pessoas têm se interessado por esse assunto, mas com a falta de boas referências e também por causa do buzz, acaba se falando muita besteira e se confundindo alhos com bugalhos. Por isso resolvi escrever um guia rápido para desmistificar conceitos e abrir portas para aqueles que queiram se aprofundar, ou pelo menos entender do que se trata. Vamos lá.


O QUE É STORYTELLING?

segunda-feira, 21 de março de 2011

A gente quer comida, diversão e histórias

Essa situação aconteceu, se não me engano, em 2009. Já havia publicado em outro espaço, mas achei que ficaria bem aqui também.

Era quase meia-noite e eu voltava de um desses compromissos noturnos que acontecem no meio da semana. Compromissos profissionais, diga-se de passagem. Quase sempre isso significa trocar um jantar de verdade por algum petisco, e uma bebida saudável por algo alcóolico. Como se essa quebra de rotina não tivesse um lado bastante prazeroso. A quem estou tentando enganar?

No caminho, dirigindo por uma grande avenida de São Paulo, me deparo com um Habib´s. A relação entre o cérebro e o estômago, ligeiramente abalada por causa do chopp, faz com que eu ligue os pontos apenas um quarteirão depois. Sim, eu definitivamente estava com fome.

"Obrigado" a retroceder em marcha ré pelo quarteirão a mais, como se a possibilidade de dar a volta fosse instransponível, finalmente estaciono o carro e, algumas chances de acidente depois, já estou dentro do restaurante esperando pelo pedido. Quatro esfihas, duas de carne, duas de queijo.

Impressionante como um pedido simples pode demorar tanto. Quanto maior a fome e a vontade de chegar em casa logo, mais tempo tem um minuto. Mas de repente meu fluxo de pensamentos inúteis é interrompido por um garçom que nota minha camisa e faz uma pergunta.

"Essa camiseta é daquele filme Laranja Mecânica?" Considerando que parecia ser um cara humilde, do tipo que nunca imaginamos vendo um filme desses, tomei um susto. Preconceituoso? Pode ser, mas as vezes a vida prega boas surpresas.

E segue o diálogo:
- Você já viu esse filme?
- Nunca vi.
- Então como você sabe?
- Ah, já ouvi falar muito sobre o laranja lá na Galeria do Rock.
- Legal, você deveria ver, é muito bom.
- É, mas não passa na Globo, eles não passam filme bom, né?

Deveria ter anotado seu nome e levado uma cópia do filme no dia seguinte. Ainda fui ingênuo em indicar uma locadora ali do lado cujo aluguel custa quase 10 reais. Eu matando a fome com quatro esfihas, e uma população inteira por aí com fome de boas histórias.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Existe remake de post?

Era uma vez um antigo blog, também da minha autoria, que tratava de assuntos muito semelhantes aos que eu trato aqui. Por diversas razões ele foi abandonado, de modo que nem vale a pena citá-lo.

Pois bem, antes de excluí-lo completamente, colocando-o no limbo dos bytes, estou transportanto para cá os melhores posts e, depois de uma revisão, atualizando aqui e melhorando acolá, vou republicá-los no Caldinas.

A questão filosófica que fica é: seria isso um remake de post? Se eu estou modificando, cópia não é. Mas também é algo feito a partir de uma coisa que já era da minha própria autoria.

Fica a pergunta e, melhor ainda, fica o que era bom do outro blog também. ;-)

terça-feira, 15 de março de 2011

Nova mitologia será interativa e transmídia

Em ritmo de preparação para o curso que vou ministrar na ESPM-SP, comecei a reassistir O Poder do Mito, série de entrevistas com Joseph Campbell, essencial para entender a relação entre histórias, sociedade, comportamento e um monte de outras coisas.

As entrevistas se passam em 1988 e em um determinado momento Campbell comenta que a sociedade estava mudando rápido demais e que novas mitologias deveriam surgir para englobar a complicada relação entre o homem e a máquina.

Ele se referia mais especificamente aos computadores, que começavam a se popularizar graças à IBM, e potencializavam aquela contradição básica entre o Homem utilizar uma ferramenta para melhorar a realidade e acabar ficando escravo dela.


Se antigamente os mitos eram criados em volta das fogueiras, já faz algum tempo que (minha tese) isso acontece por meio do cinema. Nesse sentido tivemos, nos últimos 20 anos, pelo menos duas histórias com fortes aspectos mitológicos que tratam exatamente disso: Exterminador do Futuro e Matrix.

Enquanto escrevia ontem sobre a relação entre histórias, iPad e novas tecnologias, fiquei pensando o que Campbell falaria se estivesse vivo hoje, dando aquela mesma entrevista. Longe de termos superado essa relação esquizofrênica com as coisas que criamos, mas o fato é que, com internet e afins, há novos desafios colocados para a sociedade.

O exercício de prever novos mitos é puro achismo, mas não deixa de ser divertido. Como é que iremos vivenciar as histórias mitológicas no futuro? E, mais importante, do que elas tratarão? Tenho algumas palpites:

- Se hoje o cinema substituiu a fogueira, amanhã o videogame pode substituir o cinema. Mas se, em um certo sentido, todo mundo vê o mesmo filme, como ficaria no caso de jogos abertos, onde boa parte da jornada é decidida pelo jogador? Que tipo de mito fragmentado seria esse? Já que a aventura é diferente para cada um, uma hipótese é que o principal arco da história (aquele que entra para a cultura) esteja no espaço psicológico dos personagens (mais "estático", pelo menos pensando com a tecnologia de hoje).

- Mais do que o Homem versus a máquina, uma questão que eu imagino bastante importante daqui para frente é o entendimento de que somos uma sociedade global, e não mais separada em tribos que não conhecem o resto do mundo. Campbell até toca nesse assunto, mas em 88 ele dificilmente imaginava o impacto da internet e das redes sociais. Lembram da história bíblica (e mitológica) da Torre de Babel? Então, acho que isso volta a ser especialmente importante.


- Existem muitos elementos mitológicos em Matrix, e se a trilogia tivesse sido fechada de uma forma mais convincente o impacto cultural teria sido mais profundo do que já foi. Coincidência ou não, a saga Matrix também é apontado por muitos como uma das primeiras experiências transmidiáticas, criada com o propósito de ser assim. Então, como seria vivenciar esses mitos por meio das várias mídias? Impossível não pensar na Canção Nova, movimento católico que tem como um dos principais objetivos utilizar os meios de comunicação de massa para fins religiosos. Só que a história de Jesus é originalmente linear. Como seria se uma nova Bíblia fosse escrita obedecendo uma lógica transmídia?

segunda-feira, 14 de março de 2011

A didática torta e eficiente das metáforas

Metáforas têm tudo a ver com histórias. Poderia citar as fábulas infantis, mas nem é preciso ir tão longe assim. Qualquer boa história tem alguma mensagem por trás. Algo que está além daquilo que é aparente. E que, justamente por estar escondido, consegue se fazer entender muito melhor.

Histórias não são didáticas. Pelo contrário, devem ser o oposto disso. E é aí que entram as metáforas. Se o assunto te interessa não perca a palestra abaixo, direto do TED.









iPad, novas tecnologias e storytelling

A escrita surgiu na humanidade há alguma coisa entre 3 e 5 mil anos, dependendo da interpretação sobre as evidências científicas encontradas até hoje. Obviamente não estava lá para ver, e nem conheço ninguém que estivesse, mas aposto uma mão que, assim como hoje, vários profetas criticaram a nova "tecnologia". Imagino alguém fazendo o seguinte discurso:

É um absurdo o que estão fazendo com a nossa tradição oral, decodificando e registrando tudo nesses rabiscos que chamam de letras!
Com essa tal de escrita não vai demorar muito para que as pessoas parem de usar a boa e velha conversa.
Escrevam aí, vamos esquecer como se fala e seremos um tribo de mudos!
E não preciso nem dizer que essa tecnologia do alfabeto é cara e elitista né? Só os mais abastados podem pagar por um bom professor hoje em dia.

Do outro lado do espectro também deve ter existido a figura do entusiasta sem limites, do tipo que acredita piamente que qualquer nova tecnologia seja a salvação da humanidade. Tente pensar nessa figura como um geek das cavernas:

A fantástica escrita abre possibilidades incalculáveis para a nossa tribo. Agora poderemos registrar praticamente tudo, sem ter que depender da deficiente memória humana e, vejam bem, não precisaremos mais lidar com emoções incômodas.
Tanto na hora de responder para o seu vizinho que reclama do barulho na caverna, quanto naquele constrangedor momento de chegar junto da menina, basta escrever na tábua de pedra e mostrar. E a pessoa poderá fazer o mesmo para responder.
Está decretado o fim da língua oral. Afinal, falar é coisa do passado.

A inspiração para essa brincadeira veio da tirinha abaixo, enviada pela @marianarrpp, que conta a história de uma menina apaixonada por livros que, de repente, ganha um iPad do pai. Humor à parte, o trecho mais importante para essa discussão está ali no final, quando o pai vê a menina lendo um e-book de forma "estática" e, inconformado, mostra todas as traquitanas interativas.

Relutante, a menina argumento que os elementos da história se movem melhor em sua imaginação, e não chacoalhando o aparelho para que algo aconteça. Ela quer literatura, e não um produto de marketing.

O deslumbramento e o medo causado pelo que é novo e inexplorado é uma dessas histórias contadas milhares de vezes, em todos os cenários possíveis, e essa tirinha é só mais um capítulo de como essa questão é complexa para o ser humano.

Ao mesmo tempo em que os tablets abrem uma infinidade de possibilidades para que contemos histórias mais interativas, isso não significa automaticamente que serão histórias mais interessantes, e aí está o cerne da questão.

Se hoje as interatividades parecem mais jogadas de marketing do que algo que vá contribuir de verdade para a narrativa, o motivo é que essas histórias foram concebidas para serem imaginadas e, acima de tudo, entendidas de uma forma linear.

É preciso muita experimentação até que as potencialidades de uma nova tecnologia deixem de ser oba oba e passem a contribuir de verdade para uma narrativa, e isso acontece por meio de obras que já nasceram nesse meio ou então após uma certa prática para fazer adaptações (que quase sempre não devem ser literais).

Enfim, o ponto é que uma obra-prima para iPad (ou qualquer tablet) ainda está longe de aparecer, mas também está longe de ser impossível. O negócio é ir tentando...



fonte

PS: prometo escrever mais sobre o assunto, em breve

terça-feira, 1 de março de 2011

In Memoriam

Sinceramente não tenho muita certeza de onde vieram a maior parte dos interesses que me acompanham desde criança, mas de um eu lembro bem. Quase como se fosse hoje.

A primeira vez que fui ao cinema, junto dos meus pais, foi para ver Mestres do Universo, que em tese deveria ser o "filme do He-Man". Eu tinha 7 anos e, como toda criança da época, era vidrado na animação. Tenho pouquíssimas memórias do filme, a não ser de sair meio frustrado. O He-Man que eu via na TV não era muito parecido com aquele do filme. Talvez fosse a limitação da idade, mas hoje sei que a crítica considera o filme uma bomba mesmo.

Meu gosto por cinema podia ter acabado ali. É engraçado pensar que hoje eu seria uma daquelas pessoas que vão ao cinema muito de vez em quando, só quando a namorada insiste ou quando estréia aquele filme que todos estão vendo, e se você ficar para trás não terá assunto pelos próximos 15 dias. Nada contra, é só um estilo de vida, mas não é o meu.

Felizmente não foi isso que aconteceu. Alguns meses depois estava em um cinema de rua, do centro de São Paulo, entrando só com o meu pai para assistir Império do Sol, uma experiêcia que marcaria minha vida pra sempre.

Primeiro, não sei o que ele estava pensando quando resolveu levar o filho de no máximo 8 anos recém feitos para assistir um filme desses, tão denso e complexo. Talvez por ser um filme de Steven Spielberg ele tenha imaginado que fosse o contrário. Sorte minha.

Desculpem os spoilers, mas o filme já tem mais de 20 anos. Se você não viu, corra já para a locadora ou torrent mais próximo.


Ali tomei meu primeiro susto, quando Jim, o personagem principal interpretado por Christian Bale ainda criança, está deitado em seu quarto e ouve as primeiras bombas japonesas caindo sobre Xangai, em plena Segunda Guerra. O mundo que conhecíamos podia mudar num piscar de olhos.

Depois veio o impacto de ver o mesmo Jim sendo separado dos pais na confusão, e tendo que se virar sozinho na cidade, consumindo tudo que restava em sua ex-casa até ter que sair nas ruas em busca de comida. Sobrevivência pura.

Eventualmente ele acaba indo parar em um campo de concentração onde japoneses aprisionavam as famílias inglesas e, longe do pais, acaba adotando novas referências paternas e vivendo a adolescência dentro daquela realidade. Mesmo nas condições mais adversas algumas coisas não mudam nunca.

Mas a cena que, de longe, mais me impressionou, foi a coincidência entre Jim vendo um amigo morrer e a bomba de Hiroshima explodindo no horizonte. Para ele aquilo era a alma que ascendia ao céu. Como o personagem, eu também não sabia direito o que era, e até captar a legenda do meu pai "filho, essa é a bomba atômica" embarquei na poesia.

Enfim, naquela idade isso não foi um filme, mas uma experiência. Obviamente não entendi muita coisa e voltei a assistí-lo pelo menos uma dúzia de vezes ao longo da vida. Mas ali, na sala escura e de olhos bem arregalados, tive contato pelo primeira vez com conceitos até então obscuros para uma criança paulistana de classe média alta, tratada a leite com pêra.

Só lembro de chegar em casa meio em choque, e o meu pai rindo bastante com o susto que tinha levado naquela primeira cena do bombardeio. É uma das memórias mais gostosas e vivas que tenho dele, que faleceu ano passado depois de enfrentar uma doença terrível.

Ele provavelmente não tinha noção (nem intenção) do significado daquela experiência, mas mesmo assim sou eternamente agradecido pela coragem que teve de não me tirar da sala ao primeiro sinal de fumaça, como um pai banana que esconde a realidade do filho.


Foi assim até o final, eu e meu pai assistindo todos os tipos de filmes juntos, passando por cima de qualquer censura (isso quando eu era menor de idade, e não aplicado aos pornôs) ou tabu. O último deve ter sido Dança com Lobos, com a doença já bastante avançada.

Paradoxalmente aos poucos fui descobrindo que ele vivia me protegendo das duras verdades da vida real. Sempre que havia uma notícia ruim ele dava uma maquiada na coisa, e para mim sempre chegava algo bem mais leve e suportável. Acho que ele preferia me ensinar sobre a vida por meio da ficção.

E agora estou aqui, seguindo seu legado do meu jeito. :-)

Pai, te amo.